Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

More than meets the eye

Sete Vidas Como os gatos

28
Ago08

Outra viagem começa agora, com partida do fundo do mar

Rui Vasco Neto

Vila de Santo Amaro, ilha do Pico, arquipélago dos Açores. Começara há poucos dias o ano de 1796 quando, a 29 de Janeiro, a fragata francesa «L'ástrée» naufraga à vista da costa norte da ilha. Não mais foi encontrado qualquer vestígio do navio. Até esta semana, quando, pela primeira vez em mais de dois séculos, uma equipa de investigadores da Direcção Regional de Cultura dos Açores (DCRA) localizou os destroços da fragata e prepara agora o resgate possível do que restar da embarcação. «A fragata encontra-se a oito metros de profundidade numa zona de orografia difícil com rochedos e abismos próximos que vão a mais de cinquenta metros de profundidade», diz  Catarina Garcia, arqueóloga da DRCA; «É um sítio difícil e até mesmo assustador o que leva agora a compreender porque foi difícil encontrar os vestígios do naufrágio». É outra viagem que começa, a do conhecimento.

 

A história do naufrágio da «L'ástrée» ficou escrita para a posteridade logo na altura, com todos os pormenores da tragédia num registo meticuloso e preciso. «Vinha da Ilha Guadelupe, para França, carregada de asucar, e café da Convençaõ, trazendo 18 peças d`artilharia de guarniçaõ, e 180 pessoas», especifica uma carta do Juiz de Fora da Ilha do Pico, escrita a 26 de Março desse ano a dar conta da ocorrência e hoje parte integrante do acervo da Biblioteca Publica de Angra do Heroísmo. Nela o juiz Luiz Correia Teixeira Bragança faz o balanço do desastre especificando que «de toda aquella gente somente se salvaraõ 57 pessoas; a saber 7 Inglezes (de 12 que vinhaõ na Fragata como prizioneiros de guerra), e 50 Francezes, tudo Marinheiros, e alguns officiais de manobra, morrendo 123». O magistrado explica mesmo as providências que tomou, sublinhando que foi logo ordenar «enterrar os mortos, por evitar algum contagio e depois de dár as providencias, que me pareseraõ necessarias, para se pôr a salvo tudo aquillo, que pudese sahir; recolhime para esta Villa».

 

Acontece porém que a situação na ilha terá ficado algo complicada para os sobreviventes: «por espaço de des dias, que aqui se demoraraõ, trateios com homanidade, sem os meter em prizaõ e ainda que o quisesse fazer naõ há nesta Villa cadeas, porque se demoliraõ, (palavra ilegível) inteiramente», explica Luiz Bragança. Para além disso a ilha tinha falta de alimentos, dizendo o juiz que «contribuilhe o seu necessario sustento, quazi tudo á minha custa, athe emfim vendo que elles naõ podiaõ subsestir nesta Ilha, pela falta que há nella dos generos da primeira necessidade estive para os remeter para essa Capital». É ainda de acordo com este relato, feito e acompanhado pelo seu escrivão, um tal Joaquim José da Rosa, que ficamos a saber que «a Fragata se tinha feito em pedaços e que o mar (por ser neste Sitio o tempo muito tromentoso) logo levou consigo a mayor parte da dita Fragata deixando unicamente hum grande monte de Cabos e algumas vellas envoltas com huns bocados de mastros». Assim se escreve, assim se faz a História.

 

Agora, duzentos e doze anos passados, terá aparentemente chegado a hora de colocar um ponto final na viagem original da «L'ástrée», sepultada em àguas açorianas em local finalmente encontrado. Outra viagem começa agora, com partida do fundo do mar. Recolhendo e estudando estes vestígios que agora foram localizados e inventariados pelos investigadores da sua Direcção Regional da Cultura, os Açores dão o primeiro passo de uma nova e excitante viagem ao passado daqueles nove pedaços de chão que são Portugal no meio do oceano imenso.

4 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo

RTP, Açores

Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa

Poema renascido

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D