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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

29
Ago08

Crónica de uma guerra anunciada

Rui Vasco Neto

Todas as guerras são más, todas as guerras são cruéis. Não sou lírico ao ponto de acreditar que o Homem consiga viver sossegado e contente em sociedade sem a ameaça de um cacete atómico pelo lombo se arriscar pisotear os limites da ganância (já ditados generosos pelo Poder) que justificam toda a maldade de que se é capaz neste mundo de merda pelo miserável tostão. Haverá situações-limite em que a única resposta estará na força, aceito resignado, pese o nunca esclarecimento por esta via. Mas também quem é que quer esclarecer seja o que for numa guerra, não me dizem? De resto, a tendência Outouno-Inverno das guerras aponta para matar de longe e seguir os estragos pela TV, isto já desde a invenção dos mísseis, o que quer que haja a dizer sobre esse assunto é para ser dito por especialistas acreditados, tipo Moita Flores ou Nuno Rogeiro, não é agora qualquer um que chega e diz coisas quando se está numa guerra.

 

Depois há a questão dos danos colaterais, das chamadas vítimas inocentes que deixam de o ser porque ninguém tem autorização para ser inocente quando os uns matam os outros à nossa volta. Temos que ser alguém, que diabo, uma guerra condena-nos a existir, uns e outros, enquanto não morremos, a bem ou a mal. Mas logo uns acham que somos dos outros e outros decidem que somos uns e sem que digamos um ai ou façamos um gesto eis-nos declarados inimigos de meio mundo em redor. Odiar é mais simples do que parece. Numa guerra morre gente e a gente acha natural porque faz parte e é assim, guerra é guerra, já se sabe. E acaba por ser assim mesmo, na prática, não se pode semear ventos e não esperar uma boa colheita de tempestades pela frente. Por isso a guerra só deve ser hipótese quando colocada em absoluto extremo, depois de bem explicadinha a destruição que vai acarretar para o viver de todos, uns e outros. Todos os mesmos, apenas uns, em tempo de guerra.

 

Outro factor é a política das forças armadas, policiais e militares. O legítimo desejo de um soldado é combater, por isso foi para soldado. Pode ser discutível, mas é legítimo que quem tem a sua razão de existir numa suposta eficácia enquanto combatente queira mostrar serviço, servir a pátria e combater bem, eliminando o inimigo. É a sua vocação, é mais, a sua obrigação. Nenhum desses soldados, acredito, gostará que necessariamente existam vítimas de guerra, danos colaterais, um facto e factor incontornável em qualquer conflito, Mas todos entendem a situação como parte integrante da circunstância, consequência natural que vem com o trabalho. E não deixam (não podem mesmo deixar) que isso lhes tolde o discernimento estratégico ou afecte a sua capacidade de combater, a sua eficácia letal, ou mais uns inocentes poderão morrer pelo caminho, às mãos dos outros. E é uma bola de neve, sempre maior, só que não branca mas tinta de sangue.

 

O Procurador Geral da República fez ontem uma comunicação à nação, via nota de imprensa com dez pontos que se resumem num objectivo, uma só palavra mágica: eficácia. Mesmo pagando mais caro, seja, diz o PGR, mas quer eficácia «através de acções concertadas entre o Ministério Público e os órgãos de polícia criminal, o que sempre se tem pretendido, mas nem sempre se tem conseguido». E anuncia que serão criadas «unidades especiais para combater a criminalidade especialmente violenta, que funcionarão nos DIAP’s Distritais, dirigidas por Magistrados do Ministério Público especialmente vocacionados para essa investigação».

 

Pinto Monteiro lança ainda uma espécie de desejo para que o «legislador proceda aos ajustamentos legais que se mostram necessários para combater a criminalidade violenta». E vai mais longe, mais duro ainda no tom de voz: «o hiper garantismo concedido aos arguidos colide com o direito das vítimas, com o prestígio das instituições e dificulta e impede muitas vezes o combate eficaz à criminalidade complexa». Tudo isto no culminar desta espécie de semana promocional dos assaltos&afins no Pingo Doce, com a bandidagem à solta pelas redacções nacionais e o povo a exigir justiça e mão firme, já não o mesmo que gritou "Barrabás, Barrabás" mas seguramente aquele que encheu a Vasco da Gama para a feijoada do 'Fairy' ou que espremeu as derradeiras gotas de vida a Sousa Franco, com tanta manifestação generosa de carinho popular e espontâneo em tempo de paz na terra entre os homens de boa vontade.

 

As guerras não aparecem por acaso, seja neste texto seja na vida real, onde só devem aparecer como último dos úlimos recursos. E neste texto só aparecem para assim pedir reflexão sobre os tais recursos e oportunidade das guerras, desta que se anuncia para Portugal em particular. Porque é uma guerra isto que se anuncia e qualquer guerra implica morte e destruição de tudo o que verdadeiramente importa nesta vida, a começar pela paz, é importante dizê-lo até à exaustão enquanto é possível. Se Pinto Monteiro fosse um chefe Sioux ou Cherokee do velho oeste, ontem traria um machado à cintura e estava tudo dito à grande nação índia. Sendo PGR no Portugal socrático, entendeu atacar forte no "hipergarantismo" usando manilhas de trunfo como o "prestígio das instituições" para assim propor cortar as vazas ao crime, deixando no ar que desta forma ganha o jogo de caras, sem espinhas. É o tal jogo de que falávamos que vai chegando a pouco e pouco, a tal guerra que se anuncia, uma igual às outras, só que desta vez na nossa rua, onde somos todos uns. Até os outros.

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