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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

05
Set08

Um ano de muitas Vidas

Rui Vasco Neto

O 7Vidas faz um ano de vida, um ano de vidas, sem trocadilho: doze meses com o olho na actualidade e na vida dos outros. Desse primeiro ano de vida ficaram textos memoráveis, para mim, retratos meus, seus e do Portugal que somos numa galeria agora aberta ao público durante este mês de Setembro, mês de aniversário do 7Vidas. O texto que escolhi para hoje é seguramente um dos tais, para além de ter sido o texto mais lido e visitado de todos os que fiz. E um dos que mais prazer me deram ao escrever, digo eu também. Aqui fica então a recordação de um episódio inesquecível na vida deste país, um gag que fez história: a célebre chamada de emergência para os Bombeiros de Alijó, em pleno consulado de Correia de Campos na Saúde. O texto chama-se «A morte lenta da pescada de Alijó», seguramente por alguma razão. Sempre tive muito cuidado com os títulos das minhas prosas.

 

Em baixo: "A morte lenta da pescada de Alijó"

 

A história do morto de Castedo é de morrer a rir. A aventura deste morto à espera, ontem contada no Jornal da Noite da SIC pela transcrição pura e dura das chamadas telefónicas entre o INEM e os Bombeiros de Favaios e Alijó, cá para mim merecia o Grande Prémio qualquer coisa, na ausência de um Pullitzer nacional. O repórter mais genial não conseguiria traduzir, só por palavras suas, nem um milésimo da confrangedora enormidade do ridículo desta situação. Nada como ver e ouvir, saborear cada segundo desta emergência, com a tranquila não-urgência do facto consumado. Com o assunto já morto, passe o termo. Imaginando sem esforço que se trata do grande sketch de estreia dos Gato Fedorento na SIC, um passe mágico de Nuno Santos para pôr o país a bater palmas de pé. Só assim se resiste à indignação, também. Recordemos o essencial.

Tudo começa com uma chamada para o 112. Emergência na linha. Uma mulher pede socorro porque um homem caiu em casa. A operadora do CODU faz o que lhe compete, pergunta. Onde fica? E a morada? E o telefone? A mulher que ligou é um prodígio de confusão e pede ajuda lá em casa. 'É só um momento, fachavor'. 'Tou?' É o irmão da vítima, embora pouco saiba dizer sobre ela. Idade ao certo não sabe, número da porta também não, diz que ele estava doente, (e qual era a doença? olhe, caiu!). Ah, e mais: diz que o homem está morto. A operadora do INEM duvida do mano como Portugal duvidou dos McCann. Tanta frieza e sem lágrimas? Só pode ser mentira. Vai daí quer saber mais, já pergunta em tom desconfiado. 'E ele mexe-se?' 'Não', diz o mano. 'Mas estava doente?' 'Sim'. 'Com quê?' 'Caiu em casa, deitou muito sangue pela boca'. 'E respira?' 'Ó minha senhora, ele tá morto!' Em desespero, a operadora arrisca: 'Isto não é uma brincadeira, pois não?'.

O tempo vai passando, entretanto. Se o morto estivesse vivo estaria mais morto que vivo, e se estivesse mesmo morto também podia esperar, não tem mal. O INEM liga finalmente para os Bombeiros de Favaios, para fazer seguir o socorro. 'Boa noite!' 'Diga?' 'Boa noite!' 'Ah, sim, diga'. A operadora conta a história e leva um ou dois minutos até perceber que está a falar sózinha. 'O senhor ouviu alguma coisa do que eu disse até aqui?' 'Não, é que eu estava ao telemóvel, diga lá fachavor'. A operadora conta tudo outra vez, mais minutos, mais partes gagas. Quando acaba, ouve a pergunta da noite. 'Então e agora o que é que eu faço?' 'Desculpe, eu estou a falar para os Bombeiros de Favaios, ou não?' 'Sim, pois, sim, é daqui, agora eu faço o quê?' 'Ó senhor, manda uma ambulância, então?' 'Sim, pois, mas é que eu estou sózinho no quartel...' O tempo continua a passar e a operadora começa a passar-se, ela própria. Despacha o bombeiro solitário de Favaios e liga para os Bombeiros de Alijó para resolver o problema. 'Tou?' 'Boa noite, é para mandar uma ambulância para Castedo, um ferido grave que caiu em casa.' 'Bom, mas... é que eu estou sózinho no quartel...' 'Então e se houver um fogo?' 'Ah, aí toco a sirene'. 'Então não arranja um tripulante?' 'Só se telefonar a um amigo, ou assim...'

Se uma imagem vale mil palavras, esta reportagem vale por todos os milhões de palavras que têm sido gastos a tentar retratar a reforma da saúde e a bondade dos argumentos do senhor ministro. Esta reportagem vem mudar tudo, para mim. Quando, por exemplo, me pedirem dados concretos para comprovar a fraca consistência desta visão iluminada do nosso António, eu vou esquecer as longas tiradas de reflexão e vou simplesmente remeter quem pedir a explicação para este video que tudo explica. Vinte e oito minutos do Jornal da Noite da SIC tiveram o condão de explicar ao país qual é o verdadeiro rosto da emergência médica no terreno acidentado desse interior desprotegido dos mínimos pela reforma de Correia de Campos. Assim se vê e se explica a desarticulação, a fragilidade dos meios e a falta de preparação e escassez do factor humano desta reforma. Assim se vê e escuta como podemos morrer de azar. E com o país a rir.

 

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