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Sete Vidas Como os gatos

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Sete Vidas Como os gatos

08
Set08

A prima Vera

Rui Vasco Neto

Por aqui segue a dança das comemorações do aniversário do 7Vidas (até dia 6 de Outubro vai ser assim, a Festa do Avante é que são só três diazitos) hoje com o passo que já estava a faltar neste programa das festas: as palavras dos amigos. Aqueles cuja presença, ao longo deste primeiro ano, foi o apoio e incentivo sem os quais teria sido infinitamente mais difícil chegar até aqui. E muito menos interessante, decerto, mais pobre. Fernando Venâncio, escritor, professor universitário e blogger sénior com produção vasta e de rara qualidade é um desses amigos de quem falo. Ele faz parte, juntamente com Daniel de Sá e Valupi, de um escol que há um ano atrás se juntava no Aspirina B e que este mês se vai encontrar pontualmente aqui, no 7Vidas, por força de uma amizade em comum. Eu cá bato palmas, festa é festa. E convidados como Fernando Venâncio fazem do meu modesto aniversário a grande festa da língua portuguesa. Ora leiam só o inédito que ele me trouxe de prenda.

Em baixo: "A prima Vera"

Sete vidas mais uma: Fernando Venâncio

 

 

De todas as muitas primas do Simão, a Vera foi sempre a mais querida. Percebia-se. Era a mais bem feita, a mais bem dada, a mais bem disposta. E cantava como um rouxinol. Como um rouxinol? Ui, muito melhor.

 

A prima Vera casou. Acontece aos melhores, não é pecado, ninguém lho poderia levar a mal. Mas o Simão não gostou. Era mais novo, bem mais novo, que ela. Uns bons dez anos. Parecendo que não, naquelas idades, faz a sua diferença. E a diferença era, neste caso, desfavorável ao Simão. Sejamos sucintos, e um pouco cruéis: a prima Vera nunca reparou no Simão. Gostava dele, gostava mesmo muito dele. Era, ele também, o seu primo querido. Mas reparar nele, o que se diz reparar, olhá-lo como homem, passar-lhe a ela pela cabeça, e pelo resto, o corpo daquele fedelho, ná... nem um segundo. Ele era-lhe, sejamos agora um nadinha pulhas, era-lhe anatomicamente impensável.

 

Não era esse, já nós percebemos, o caso dele. Não que na cabeça, e no resto dele, as coisas tomassem formas, digamos, rígidas. Aquilo era platónico de cima a baixo. Mas não subvalorizemos os enleios platónicos. Eles podem ser seriíssimos, e mesmo arrastar à desgraça, como se verá. Quem a prima Vera levou ao altar não é coisa que nos interesse. Ela também não estava assim muito, muito, muito doida por ele. E, pior, nem era tanto ele quem enraivecia o Simão. É triste, mas as pessoas às vezes têm muito pouca importância. O que pôs inconsolável o miúdo foi a prima Vera, que até ali tinha sido dele – da voz ao sorriso, dos folhos da saia à palha do chapéu, dele só –, ter ela deixado de pertencer-lhe. Como, ‘pertencer-lhe’? Não lho perguntassem, ele não saberia dizê-lo. Mas a mágoa, o sentimento de abandono, nem por isso eram menos opressivos.

 

Uma noite, estão Vera e o anónimo esposo, no antigo quarto de costura agora acomodado a ninho de amor, entretidos em qualquer inocente festividade, irrompe-lhes por ali o Simãozinho. Vinha armado. Com a faca de trinchar, mas de longe não se distinguia. Até porque tudo banhava em conveniente penumbra.

 

A Vera ocupa ainda o quarto de hospital, incapaz de ver-se a si mesma, perguntando dia e noite que rosto estará agora por debaixo dos pensos. O Simão foi internado numa unidade correccional – sítio errado a mais não poder –, convencido de que não vale a pena, para ‘isto’, estar uma pessoa vivo. E o milagrosamente ileso e, agora para sempre, anónimo consorte, esse considerou que o quarto da costura, um priminho assim e uma cônjuge desfigurada não estavam absolutamente no programa.

 

História tristíssima, hão-de dizer-me, a da prima Vera. Concordo. Mas tenha-se em conta que esta foi, ainda e só, a versão atenuada, que tentou não ferir os espíritos sensíveis.

 

Fernando Venâncio

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