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10
Set08

E se a Igreja se calasse?

Rui Vasco Neto

O 'caso Kippenberger' já foi assunto aqui no 7Vidas, embora muito por alto, numa leve abordagem que sugeria a reflexão sobre a bondade e valor pedagógico de uma eventual proibição pura e dura, por parte da Igreja católica, de toda e qualquer manifestação artística com a qual a vetusta sensibilidade do Vaticano pudesse sentir-se ferida. Sendo que não existe bitola segura e imparcial para aferir a ofensa, nem escala de rigor para medir o pecado a metro. Qual é então o pecado maior, foi questão deixada em aberto nessa altura. Passaram dez dias, entretanto. Sei, pela correspondência privada que trocámos, que o assunto mereceu séria reflexão para o meu amigo Daniel de Sá, que hoje repega o tema com mão segura, a mesma que escreveu este texto. Que me recuso a adjectivar. E que me orgulho de publicar. Abençoado aniversário. 

Em baixo: "E se a Igreja se calasse?"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

Há cerca de setenta anos o meu avô marceneiro esculpiu em madeira um Cristo crucificado. Esse crucifixo não foi nem será nunca considerado uma obra de arte porque o meu avô não tinha estatuto de artista. Mas Martin Kippenberger tinha. Por isso o sapo que ele pregou numa cruz é tido como arte. Intocável, portanto. Apesar de ser uma obra objectivamente feia (bem sei que o belo e o feio não são critérios para definir o que é arte) e feita com a única intenção de provocar. Aliás, toda a curta vida deste artista germânico foi um contínuo acto de provocação. E a provocação como propósito é que não é característica necessária da arte. Qualquer objecto artístico continua a ser arte, ainda que provoque ira ou despeito. Mas isso não lhe acrescenta um átimo de valor. Se for uma provocação justa, pode aumentar o valor moral ou ético da obra, mas não o artístico.

 

Há pinturas ou esculturas esteticamente pavorosas que são obras-primas absolutas, como a série dos Desastres de Guerra, de Goya, ou a Guernica, de Picasso. Mas o sapo de Kippenberger é uma estupidez gratuita, uma peça que chega a causar asco pela inestética e repulsa pelo significado que não tem. E, quando a intenção é ridicularizar, propósito nesta obra ainda mais aparente do que o da simples provocação, então a arte deixa de o ser, passando a pedra de arremesso contra a dignidade alheia.

 

Responsáveis católicos italianos insurgiram-se contra a obra de Kippenberger. E logo vozes libertárias, inconscientes talvez do paradoxo da acusação, invocaram a liberdade de criação para vituperar a Igreja por se mostrar ofendida com o sapo na cruz. Nem sequer é preciso explicar em que consiste o paradoxo de se permitir a qualquer artista a total liberdade de expressão, negando-a à Igreja, e quase só a ela, quando se trata de discordar de obras de que seja alvo por ridicularização. E vem logo à conversa a Inquisição, como má memória para a Igreja se calar para sempre, nem que seja a respeito de uma pintura da Virgem em que o artista utilizou excrementos de elefante ou de um Cristo de Terence Koh com um pénis monstruoso em erecção, que se encontra exposto no Centro Báltico de Arte Contemporânea de Gateshead, na Inglaterra. (Aliás, este artista tem várias imagens sagradas deformadas deste modo, incluindo figuras femininas.) Como se Portugal, por exemplo, por ter feito cerca de quatro milhões de escravos não pudesse nunca mais pronunciar-se sobre os direitos humanos.

 

Mas será que a Igreja deveria mesmo calar-se? Talvez devesse, admito. Mas por outras razões. Porque, quando ela critica ou condena uma pintura, uma escultura, um livro ou seja lá o que for, a discussão centra-se na crítica e na condenação e perde de vista a obra. O caso do Evangelho Segundo Jesus Cristo foi, entre nós, paradigmático. Quase ninguém se atreveu a fazer-lhe uma crítica a sério, tal foi a revoada de condenações à reacção de Sousa Lara e de outros sectores católicos. Ninguém pareceu interessado na distorcida perspectiva histórica, na maçuda qualidade narrativa, na vulgaridade dos lugares-comuns, que fizeram deste livro uma obra que não está ao nível do talento de Saramago.

 

Por isso estou convencido de que o silêncio da Igreja será mais útil em casos semelhantes. Talvez a discussão da obra sob uma perspectiva meramente artística acabe por demonstrar que muitas vezes a arte moderna está ridiculamente nua.

 

2 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Daniel de Sá 11.09.2008

    Leste com atenção o último parágrafo? Leste o que eu disse acerca do "Evangelho", de Saramago?
    Tu mesmo fizeste uma crítica excelente à má qualidade da obra. Mas que ficou como marca no teu texto? A crítica à crítica do bispo de Bolzano.
    Estas reacções da Igreja, embora respeitáveis como opinião da parte ofendida, acabam por gerar mais fumo do que fogo, sendo ela sempre o alvo (neste caso um alvo a negro) final dos contra-ataques. Que, na maior parte dos casos, são de uma falta de imaginação, ou de cultura, absolutamente aflitiva. Palavra de honra que sou capaz de te desafiar para uma sabatina sobre os erros da Igreja e as suas figuras repelentes, e tenho poucas dúvidas de que te apresntarei muitos mais casos do que aqueles talvez que tu conheces. O que não é vantagem, porque estudei a História da Igreja em Teologia e tenho continuado a estudá-la por minha conta e gosto. Mas não era isso que estava em causa.
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