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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

02
Jun11

Eu, ganso.

Rui Vasco Neto

Alguém cuja opinião eu muito respeito e oiço, sempre com redobrada atenção, disse-me esta semana que me bastaria a inteligência de um ganso para conseguir alcançar um determinado objectivo que me proponho atingir há vários anos sem sucesso. Mais explicadinho, que eu só tinha que ser ganso e seguir o bando e tudo correria às mil maravilhas para o meu lado. Eu cá embatuquei, confesso. Caí de quatro. Fosse um burro a dizer-mo e eu ficar-me-ia pelas bordas da fábula e fugiria de buscar sentido mais profundo em tão tresmalhada analogia. Mas não, longe disso, foi mais um mocho arraposado quem me falou, olhos bem abertos e esperteza em muito superior à minha, características que aliadas à inteligência prática de que é particularmente dotada a sua sub-espécie fazem deste bicho um animal de respeito, nesta selva em que existo e resisto. Daí que fiquei a pensar, a ruminar, bufando para dentro mas sem ceder ao grasnado de irritação que seria normal e expectável neste animaleco que sou em circunstâncias deste calibre. Mas não fiquei convencido, tenho que confessar. Arrepiado sim, convencido pouco, confuso muito. E um nadita irritado, assumo. 

Afinal tenho eu manias de fera com muitos quilómetros de National Geografic, papa-léguas em savanas e montes bem distantes do eixo Rossio-Entrecampos para dar agora por mim exposto neste espelho que me olha de frente e reflecte de esquina, rasando alguma lógica mas aterrando em cheio nos antípodas do meu imaginário, no deserto mais inóspito das minhas convicções!!! Pelo sim pelo não obriguei-me a considerar o argumento, ponderei até a possibilidade de acerto, por mero exercício de humildade. Mas nada a fazer, por mais voltas que dê à metáfora a analogia parece-me tão descabida e disparatada como da primeira vez que a escutei, pese a sapiência do bico que a palrou. Porquê? Passo a explicar.

Não é que eu não compreenda onde quer chegar a comparação, qual o sentido útil a retirar da relação de semelhança e até o superior alcance e objectivo do bitaite que agradeço, raso e reconhecido. Mas para o conseguir entender parece-me manifestamente escassa a inteligência que Deus deu às aves em questão, pelo que o palpite cai de maduro muito antes de me deixar verde de raiva, para começar a conversa. E depois há a questão das diferenças inultrapassáveis  -  e atenção que não falo de penas e pelos, braços e asas, pernas e pescoço, nada que se pareça. Falo sim da elegância que me falta e lhes sobra, da gansualidade que nos separa, da territorialidade que os caracteriza e a mim me passa ao lado, do hábito que têm de comer tudo o que lhes apareça pela frente enquanto eu me mantenho criterioso e cada vez mais esquisito no bicar (mesmo no Verão, quando a caça ronda descapotável e disponível) e, last but not least, falo do saboroso foie gras em que se transformam os seus dias no mesmo final que a mim me vai seguramente comer inteiro e intacto nestes maus fígados que me vão mantendo vivo e orgulhosamente resistente à padronização da raça, essa sempiterna tentação de todo o poder reinante em qualquer cadeia alimentar deste mundo de Deus e do Diabo.

Daí que digo não ao conselho, ganso nunca, decididamente obrigado mas não, obrigado. Tanso talvez vá sendo, aqui e ali, que a selva é densa e eu serei pitosga na visão de mim próprio e míope de espírito nas curvas da tentação. Isso sim, aceito. Mas o meu canto de cisne há-de ecoar para além do estampido da manada ou eu não terei vivido de todo, quando chegar a hora do balanço final das minhas penas. E se há moral a tirar deste lafonténico e bem intencionado palpite, eu cá só vejo uma e pouco mais de troco: é que até o bicho mais esperto e informado mete a pata, de quando em vez. E essa, sinceramente, já cá se sabia.

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