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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

14
Jun11

Foi ontem.

Rui Vasco Neto

Ontem não pude escrever, lamento, fui de viagem. Estive no Rio de Janeiro. Cheguei cedinho, ainda havia cruzeiros e generais, bonde e Chacrinha. Figueiredo dizia as últimas e saía da frente dessa imensa onda popular que trazia Tancredo Neves na cabeça, mais do que um nome ou mera pessoa, a verdadeira personificação daquela mudança há tanto tempo desejada na grande pátria amada. Também eu rezei pelas ruas, mais um pelo meio dos infindáveis cordões humanos que pediam a vida de Tancredo quando a saúde lhe falhou e o fez falhar, impedindo-o de atingir o objectivo primeiro do seu consulado. Chorei com todo o Brasil na sua partida e depois recebi Sarney, acordei com o Plano Cruzado e o exército nas ruas, desfilei na Sapucaí vestindo as cores da Portela/Tradição de Carlinhos Maracanã (o português mais brasileiro que eu conheci, presidente de escola de samba, presidente do Bangu e bicheiro, naturalmente), sonhei o amor impossível nas areias de Copacabana e vivi a paixão possível num apartamento do posto 4, Bolívar com Copa, último andar. Fui feliz, na generalidade, acho.

Na televisão o grande despique era entre a toda poderosa Rede Globo e a número dois Rede Manchete, o império dos Bloch em franca expansão ao tempo. Eu, mais modesto, dei-me por feliz como autor e apresentador na Rede Record, parte integrante do SBT de Sílvio Santos, hoje número um nas audiências, acima da Globo. Chamava-se 'Portugal mais Perto' o meu programa semanal, aos sábados nas manhãs da Record, e ainda dava tempo para fazer produção no Edna Savaget Show, exibido nas tardes da Bandeirantes e depois raspar-me para Jaguanum, minha ilha paraíso ao largo de Itacuruçá, três dias e três noites por semana. 

Pelo Rio corri os inferninhos da Lapa, inebriado de memórias bebidas a toque de cavaquinho, sempre aninhado em violão. Nesse mesmo passo descobri Botafogo e Leblon, e mergulhei no passado em Ipanema ao ouvir o grande Kid Morangueira, Moreira da Silva de seu nome, figura genial no samba de breque. Trepeti o Canecão com Betânia, Gal, Chico Buarque e Paulinho da Viola, respirei o respirar de Caetano num inesquecível concerto intimista no Copacabana Palace e vibrei no Maracanãzinho com o Rei Roberto e no Maracanãzão com vários Fla-Flu e muita torcida vascaína em grandes partidas de tudo ou nada. Fiz rádio na Bandeirantes, fiz jornais e revistas, mandriei tardes inteiras nos areais da Barra da Tijuca e manhãs de três metades em lençóis de uma ternura que não mais reencontrei no meu caminho, tantas milhas já navegadas. Fiz canções lindas e ouvi muitas outras mais bonitas ainda, escrevi poemas que já esqueci e vivi poesia inesquecível, sussurada ao meu ouvido pelas ondas do mar a mando das ninfas e outros seres do pecado perfeito, esse estado de graça inventado pela suprema arte de viver do carioca. E quando eu julgava que o Rio já não me surpreendia mais, que já me tinha dado tudo e mais do que eu podia querer, eis que Iemanjá me faz a dádida maior de uma vida nascida da minha vida, mesmo no final do dia de ontem, 13 de Junho, na Casa de Portugal do Rio de Janeiro. Outra viagem começava  naquele momento, lembro-me de pensar para comigo nesse dia 13 de Junho de 1986. E como será daqui por dias, meses, anos, muitos anos, vinte e cinco anos, por exemplo? Vinte e cinco anos... Vinte e cinco anos. 

Pois é, ontem não pude escrever, lamento, fui de viagem. Estive ausente, daqui e de mim, por terras onde andei e em busca do que lá deixei, em busca de quem fui para ver se finalmente entendo quem sou, entre outras coisitas de somenos importância. Como estes vinte e cinco anos, por exemplo, que nunca sei que lhes fiz nem onde os pus sempre que preciso deles.

 

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