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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

24
Jul11

E pronto, caiu.

Rui Vasco Neto

Foi estrela cintilante na constelação da pop mundial. Rara. Excessiva. Brilhante. Amy Winehouse apagou-se ontem, aos 27 anos de idade, a mesma idade fatídica com que morreram Kurt Cobain, Jim Morrison, Brian Jones, Jimmy Hendrix e Janis Joplin, cinco nomes lendários para cinco vidas excessivas, cinco existências igualmente marcadas pela genialidade e pela tragédia. Pelo abuso do álcool e das drogas, também. E pela morte precoce, após uns escassos 27 anos de vida e depois de maravilharem o mundo com o seu talento, imorredouro nos registos que nos deixaram. Amy Winehouse foi como eles uma estrela maior, é certo, mas uma estrela sempre cadente, até mesmo no auge. E mais, e pior: tão progressivamente decadente (e a uma tal velocidade) que a notícia do seu fim acaba por pouco espantar, como se um final trágico fosse o único culminar aceitável na performance desta artista... e a dor da separação um encanto para saborear, entre os fãs.

 Em 2007 Amy Winehouse recebia seis indicações para os Grammy's, incluindo as quatro principais (Revelação do Ano, Álbum do Ano, Gravação do Ano e Música do Ano), se bem se recordam. Acabou rainha da noite, contemplada com cinco estatuetas numa cerimónia realizada em Los Angeles e a que Amy não pôde assistir por lhe ter sido recusado o visto de entrada nos EUA, em função do seu comportamento habitualmente escandaloso. Foi por essa altura que escrevi este texto, de onde retirei agora estas palavras dedicadas à estrela da noite, estrela maior, extravagante, genial. 

A mesma estrela que ontem, de tão cadente, caiu.

 

"Aos ouvidos de Amy sopram agora as mesmas vozes que sempre se encontram ao redor de um vencedor, os que dizem só o que sabem ser do agrado de quem ouve, sem risco de contraditório. Take it for granted, dir-lhe-ão. E ela vai gostar de ouvir, pelo que if they want to send me for rehab I'll say no, no, no... Em volta de uma Amy já em desequilíbrio estão agora os pesos mortos, rapaziada do elogio, pessoal da lingua no coiso, mestres da graxa e sugadores de luxo em qualquer palhinha que se ponha a jeito. O peso de todos, num equilíbrio já de si precário, fará cair o chão e desabar o tecto do sucesso. Depois pôr-se-ão a milhas. E só na solidão do abandono das sanguessugas e dos cínicos, dos lacaios e dos bobos, dos falsos e dos merdas, é que Amy Winehouse vai encontrar um dia o seu caminho da glória. Ou não, quem sabe fica pelo caminho, como tantos outros fenómenos que não se souberam gerir enquanto tal. Que só deram pelo valor do seu talento quando já toda a gente tinha secado as lágrimas por este se ter suicidado. Será uma pena se assim for também com esta garota, pouco mais, brinquedo nas mãos das bruxas que batem palmas ao petisco da rentável novidade. E que querem tanto rehab como ela, alucinada. Amy Winehouse sem drogas? Podia até ser engraçado, mas não vendia. Amy é mais que a pessoa que canta, é o boneco escandaloso que pisca o olho à moda, que é quem paga as contas. Do encanto do espectáculo faz parte a sua própria degradação, que o público paga para ver como quem vai ao circo ver o leão comer o prior, neste moderno freak-show global.

Amy Winehouse é um fenómeno da pop, uma genuína alma de artista perdida numa embalagem de sofrimento e desespero. Uma voz de timbre único, uma sensibilidade selvagem e um ritmo original, próprio, inventado, criado, seu de berço. Uma eleita, inocente dessa culpa. O que ela tem que a faz genial ela não domina, não compreende, não vê e não valoriza. Para ela, tal como está, a felicidade ainda mora no nevoeiro e o amanhã não existe. Aos 24 anos, Amy segue em rota de colisão com o seu próprio futuro, embalada na asneira por não conseguir chegar com o pé ao travão da maturidade. A noite de ontem, ao carregá-la com mais cinco pesos de estrelato, só chamou mais gente para ajudar a empurrar a tragédia. Só deu velocidade ao inevitável, suspeito. Porque o espectáculo, esse, tem que continuar sempre, custe o que custar. E custe quem custar no caminho."

 

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