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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

01
Jan08

Janeiro, dia um: a tradição de ter uma tradição.

Rui Vasco Neto
Dormi como um justo. Como já não dormia desde o ano passado. O Juvenal acordou-me às oito, como de costume, mas na bandeja do pequeno almoço lá vinha escarrapachada a diferença da data: espetada no meu brioche de trigo e algas ondulava uma bandeirinha de pano a dizer 'Feliz 2008', feita em ponto de cruz desenhado pela velha Marianinha nos seus serões à lareira da cozinha da criadagem. Foi a primeira coisa que fiz desaparecer, discretamente, para fundo debaixo dos lençóis enquanto o Juvenal abria os reposteiros das janelas do terraço que dá para o jardim. A luz do lado leste, que entra pelas janelas que dão para o mar, incomoda-me sempre pela manhã. Nunca deixo que ele as abra.

Vesti-me depressa. Evitei aborrecer-me com aquela rapariguinha nova, nunca sei como elas se chamam, aquela que agora me calça os sapatos em vez do Sebastião, que anda adoentado das costas e custa a dobrar-se de manhã. Os meus pés ressentem-se, é certo. A diferença é enorme, para bem pior, entre o trabalho de uma e o do outro. Ela até é gira, tem maminhas e ele não, mas sinto-lhe a falta, coitado. Comentei isso mesmo, hoje, com a Fanny e com a Melissa, enquanto me vestiam a camisa. Estava tão distraído na conversa que eu próprio dei o nó da gravata, só espero que a Locas não tenha ficado aborrecida.

Adoro conduzir de manhã no primeiro de janeiro. Não se vê vivalma, é uma paz, o mundo inteiro só para nós. Acreditam que nem um pássaro se cruzou comigo desde que saí de casa até chegar ao Gigi? Aterrei sem problemas, graças a Deus. Mais cinco minutos e tinha havido chatice com o helicóptero do Damásio, que chegou logo a seguir com a Margarida. Mas vá lá. Acabámos por almoçar todos em grande galhofa, como é tradição em todos os dias um de Janeiro. E dissemos mal de toda a gente como é tradição em todos os dias do ano. Fumámos, claro, olha se não, era o que mais faltava, então...?! Embora ache muito bem que o povo seja obrigado a cumprir a nova lei. É para o bem de todos lá, no fundo. E para o bem de todos, lá no fundo.

A tarde foi passada no Bridge, como é tradição no nosso grupo. Escapei-me uma mei'horita para fazer amor, outra tradição que sigo à risca todos os dias um de Janeiro. Voltei à mesa só para recolher os ganhos e despedir-me de todos. E voei para casa. Agora não há tempo a perder. Tenho à justa o necessário para tomar um banho de sais. E mesmo assim não me posso distrair na conversa com a Leila da esponja amarela, nem perder-me em marotices com o resto das miúdas dos sais. È tomar banho e andar, rapidinho que são quase horas de chegarem os primeiros convidados para a festa e a criadagem não passa sem orientação superior. Não vos disse ainda? Ai, esta minha cabeça! Perdoem-me, é a excitação. Todos os anos, no primeiro de Janeiro, eu recebo uns amiguinhos e amiguinhas para uma grande festa nos jardins aqui da mansão, um fórròbódò que dura até de manhã, vem a Carolina ex, o Santana Lopes, malta da bola, a Lili eterna e o Carlos Castro. E sai sempre na VIP e na Caras. É a tradição.

Este ano escolhi o Jardim Tropical porque lá sempre se está mais abrigado e fica só três alamedas abaixo do Jardim das Flores, onde fizemos a festa do ano passado. O sítio é lindíssimo, tem uma fonte que é um urinol de anjinhos ou assim, com umas pilinhas muito giras, pequeninas, uma maravilha de antiguidade que comprei em Itália há muitos anos e que agora deve valer para cima de uma fortuna, ou mais. E depois é tudo gente que é da casa, praticamente, uma coisa muito íntima, reservada, nunca mais de quinhentas pessoas, nunca, nunca. E é sempre jantar volante, tudo de pé junto ao lago, espalhados pelas margens, tudo iluminado, é tão bonito... Faço absoluta questão que sejam jantares volantes, sempre, todos os anos. Detesto aqueles longos jantares convencionais nesses dias um de Janeiro em que faço amor. É também uma questão de tradição, claro, mas não só, confesso. Por melhor que seja a companhia à mesa nesses dias, dói-me sempre um bocadinho ainda, da tarde. Custa-me estar sentado tanto tempo.

Esta noite quero deitar-me cedo, está prometido a mim mesmo. Afinal, um homem tem que descansar. A vida são dois dias e está cada vez mais difícil para todos. E a tradição também já não é o que era, digam lá o que disserem. Mas viva dois mil e oito, pronto.

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