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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

27
Jun08

Fitada certeira

Rui Vasco Neto
27
Jun08

Bom dia. Hoje parece estar tudo azul para estes dois.

Rui Vasco Neto
26
Jun08

Maia (II)

Rui Vasco Neto
Ontem iniciámos esta aventura, hoje seguimos o passeio por terras açorianas pela mão de Daniel de Sá, que assim marca a cadência da passada no embalo das palavras. Recorde-se que este autor é natural e um residente desta mesma Maia de que hoje nos fala, em prosa inspirada como sempre, repleta de sons, cheiros, letras vivas que nos levam de volta à ilha como se nunca tivèssemos de lá saído. «Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela», diz-se em "Ilha Grande Fechada". Sábias palavras, digo eu. Dele, claro. 

 

Em baixo: "Maia  (II)"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

A vila que o não foi
 
 
Disse Gaspar Frutuoso que este lugar, de “bem compassadas e começadas ruas de casas telhadas”, “muitas vezes procurou ser vila e para isso repetia, porque moraram e moram nele homens muito honrados; era necessário ter jurisdição por si, pelo muito trabalho que passavam e passam os seus moradores em atravessar a serra, indo às audiências a Vila Franca.”
 
Nesse tempo, o lugar da Maia (o termo “freguesia” ainda não tinha conotação administrativa) abrangia toda a zona da costa, desde a ponta onde foi fundada até aos Fenais da Ajuda – que então se chamavam Fenais da Maia – e, pelo interior, até às Furnas. E uma das provas de que cedo alcançou notoriedade terá sido o facto de que Pedro Roiz da Câmara, tio do quinto capitão, Rui Gonçalves da Câmara – de quem foi lugar-tenente e em nome de quem governou a Capitania durante os sete anos da sua ausência antes da subversão de Vila Franca do Campo –, ofereceu um pontifical de damasco rosado à matriz de Nossa Senhora da Estrela e outro à igreja do Divino Espírito Santo da Maia.
 
Mas, se o desenvolvimento social e o bom aspecto do pequeno burgo estavam a favor das pretensões da Maia, os desastres naturais foram-lhe inimigos. É que, em consequência do tremor de terra de 22 de Outubro de 1522, e à semelhança do que aconteceu em Vila Franca devido a chuvas recentes e à fragilidade do solo onde predominava a pedra-pomes, a derrocada de uns montes que lhe eram sobranceiros arrasou parte do lugar, soterrando casas, bens e pessoas. E, em 1563, as cinzas do vulcão do pico do Sapateiro, trazidas pelos ventos de sudoeste, destruíram todas as culturas, tornando a terra estéril por algum tempo.
 
Melhor sorte tivera a Maia no ano de 1630, quando rebentou o vulcão no vale das Furnas – o que fez secar uma pequena lagoa, hoje conhecida como Lagoa Seca –, de tal modo que serviu de refúgio a alguns dos eremitas que ali viviam, os quais, transportando o Santíssimo que salvaram do eremitério, aqui se acolheram, enquanto que um outro grupo, que levava consigo as imagens sagradas, foi parar ao Porto Formoso.
 
Há uma referência curiosa do Dr. Gaspar Frutuoso que nos ajuda a perceber o considerável desenvolvimento social da Maia já no século XVI. Tendo sido o jogo da péla (antepassado do ténis) praticado sobretudo pelas classes mais evoluídas, diz-se nas “Saudades da Terra” que “Um Brás Dias, da Ribeira Grande, foi o melhor jogador de péla que houve em todas as ilhas dos Açores, porque, jogando de ambas as mãos, tanto lhe dava jogar com uma como com outra; e, logo após ele, António Roiz e Fernão Martins, do lugar da Maia.

 

25
Jun08

Maia

Rui Vasco Neto

O meu amigo Daniel de Sá escreveu-me ontem. «Meu caro: se te parece que temos leitores suficientemente pacientes e curiosos para ler isto, aqui vai à tua disposição. Se se notar interesse, tenho mais, a completar um pouco o essencial que há para dizer sobre a Maia». Respondi-lhe logo, mais lesto que a volta do correio. «Caríssimo: não me parece que tenhamos tais leitores, mas vou dispor dele na mesma, posto que mo deixas. E quero que saibas que estarei atento a todas as saliências e relevos suspeitos de serem sinais de interesse. Aviso-te mal ponha o olho num.» Juntei um abraço e enviei sem reler. Quando li fiquei preocupado, um bocadinho. Não é por nada, mas espero sinceramente que ele me tenha percebido bem.

 

Em baixo: "Maia"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

 

 

O nome e o povoamento

 

 

Ao chegar a Santa Iria, vindo de oeste, avista-se de repente uma vasta paisagem onde sobressaem três formosas pontas. A do meio está muitas vezes soalheira enquanto as nuvens cobrem a ilha, e a linha de sombra marca o sopé das colinas onde há cerca de dez mil anos acabava a terra, antes de os vulcões lhe acrescentarem mais aquela fajã.

 

Foi talvez por haver notado essa particularidade que Gaspar Frutuoso escreveu “a Maia é um lugar bem assombrado”. Porque a sombra nota-se mais onde há mais luz. Com frequência a própria chuva não passa abaixo da ponte da ribeira da Gorreana nem da curva da Cruz do ramal da Lombinha, e o nevoeiro detém-se sempre a meia encosta dos pequenos picos a que Frutuoso chamou “serra da Maia”.

 

Vindos provavelmente por mar, os povoadores ficaram certamente convencidos de ter alcançado a sua terra prometida quando pela primeira vez viram esta paisagem de perto. Pouco depois fundeavam num ancoradoiro seguro e inesperado, porque a costa das ilhas raramente recebe assim os viajantes nuns braços de lava entre agrestes arribas. E sem dificuldade deram com abundantes águas, para os gastos domésticos e para mover os moinhos.

 

Foi Gaspar Frutuoso que nos legou o nome de quem chefiava o grupo de pioneiros: Inês Maia, segundo consta no original das “Saudades da Terra”. Terá sido com certeza uma senhora da burguesia, talvez viúva, nada mais se sabendo a seu respeito, nem sequer se já vivera algum tempo nesta ou em outra ilha. O seu nome, no entanto, parece indicar como origem – dela ou da sua família – as Terras da Maia, coração da nacionalidade e berço de heróis famosos, durante muito tempo fronteira entre cristãos e mouros. Esta povoação micaelense foi mesmo a primeira que, em Portugal, se chamou apenas Maia. A da ilha de Santa Maria surgiu um pouco mais tarde, devendo o seu nome a Catarina Fernandes – conhecida como “a Maia” por ser filha de João da Maia – que ali possuiu algumas terras. Quanto à cidade continental nortenha, o actual nome só lhe foi dado em 1902, quando o antigo lugar do Picoto, da freguesia de Barreiros, sucedeu ao Castelo da Maia como sede do respectivo concelho.

 

Estava-se provavelmente ainda no século XV, uma vez que em 1522 a Maia tinha já um desenvolvimento considerável. As primeiras casas terão sido construídas junto à grota da Lajinha, porque normalmente os senhores das terras cediam apenas um pequeno espaço para os trabalhadores agrícolas, sempre que possível de modo a que as traseiras das habitações dessem para uma grota ou uma ribeira, e assim não lhes fosse fácil aumentar o tamanho dos pequenos quintais. Muito perto, foi erguida a igreja, dedicada ao Espírito Santo, advocação que se mantém na actual, construída no mesmo lugar. A esse núcleo primitivo foram sucedendo outros, sempre paralelos, formando ruas na direcção de Norte a Sul, unidos por pequenas travessas. De modo que a tão peculiar malha urbana da Maia se terá devido mais à necessidade de poupar terrenos do que a uma intenção estética ou funcional. 

 

22
Jun08

Um nome acima de todos os nomes

Rui Vasco Neto

Daniel de Sá brinda-nos hoje com «a introdução de um resumo histórico da Terceira, para um livro a editar pela Ver Açor, em co-autoria com o Joel Neto», segundo me diz em recado privado. Na prática e em primeira análise trata-se sim é de mais uma belíssima prosa deste autor açoriano, como de costume. O que só nos deixa água na boca para o que será o livro todo, se isto é a introdução.

 

 

Em baixo: "Um nome acima de todos os nomes"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

Terá sido naquele lugar, onde quatro ribeiras desaguam, que os descobridores desembarcaram na ilha? Desse tempo, quase tudo é nebuloso. Só Gaspar Frutuoso deixou algumas coisas ditas, mas também ele já se vira obrigado a valer-se da tradição, nem sempre certa, ou da lenda, que pouco ajuda. E as primeiras dúvidas logo surgem quanto à razão de se dizerem dos Açores estas ilhas, ou de se chamar Terceira à que primeiro foi de Jesus, em homenagem à Ordem de Cristo ou por ter sido descoberta em dia de especial festa do Redentor.

 

A explicação mais imediata, já dita por Frutuoso e geralmente tida como certa, é a de que o nome se deve a ter sido a terceira das nove a ser descoberta. Mas esta razão não convence, porque não é fácil imaginar que, havendo ela recebido primeiro um nome acima de todos os nomes, décadas mais tarde ele fosse mudado para outro que honrava apenas a cronologia do descobrimento. De qualquer modo, parece claro, por uma carta do Infante D. Henrique, que se esta designação de Terceira lhe foi dada por ser a terceira do arquipélago, tê-lo-á sido por ser a terceira na ordem geográfica e não da descoberta. Nessa carta, em que D. Henrique concedia a capitania da ilha a uma das filhas do flamengo Jácome de Bruges, que viera cá a povoá-la, pode ler-se: “...a ilha de Jesus Cristo, terceira das ditas ilhas...” Quanto a Valentim Fernandes, na Descrição das Ilhas do Atlântico (1507), parece admitir as duas razões: “A ylha terceyra foi assi chamada porque foy achada depois das outras duas s. Sancta maria e sam miguel. E tambem contra hoeste jaz a terceyra em numero.”

 

É provável que o facto de a Ilha de Jesus Cristo ser a terceira na geografia tenha pesado na mudança do nome. Mas quase de certeza que tal não teria acontecido se estas ilhas não tivessem sido também chamadas Ilhas Terceiras. A explicação para este nome usado nos primeiros tempos traz pelo meio um claro erro de Gaspar Frutuoso. Diz ele que os Açores seriam chamados as Ilhas Terceiras em atenção ao facto de antes delas terem sido primeiro descobertas as Canárias e depois o arquipélago da Madeira. Nisto estará certo o cronista. Na alternativa é que está o erro, pois, excluindo na segunda hipótese as Canárias da lista, ele fala das ilhas de Cabo Verde como sendo “as primeiras de Portugal”. No entanto, quando os Açores foram descobertos nem sequer Gil Eanes passara ainda o Bojador (1434), e só em 1460 Diogo Gomes e António de Noli, no regresso de uma viagem à costa da Guiné, descobriram a primeira ilha do arquipélago de Cabo Verde, Santiago.

 

O próprio Frutuoso escreveu “A ilha Terceira, universal escala do mar do ponente, é celebrada por todo o mundo, onde reside o coração e governo de todas as ilhas dos Açores, na sua cidade de Angra...” Era portanto a esta “celebrada” ilha que sempre se dirigira a maior parte dos navegadores que viajavam no norte do Atlântico. E com certeza que, nos primeiros tempos, muitos se refeririam a estas como as Ilhas Terceiras. Ora acontecendo que, quase invariavelmente, o destino fosse aquela ilha Terceira, era natural que o nome lhe ficasse especialmente atribuído.

 

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