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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

04
Out08

Pacheco Pereira e o círculo quadrado

Rui Vasco Neto

Ouvi-o com toda a atenção. Ouço-o sempre com muita atenção. É até onde vai a minha reverência por qualquer personalidade que produza pensamento de valor disponível para a apreciação dos meus sentidos (definição possível para 'intelectual', na circunstância, palavra que tanta ameaça parece carregar quando a si aplicada, tamanha a pompa, prosápia que irradia o seu carisma pessoal). Ouço e penso no que ouço. Com aquilo que diz vou concordando ou discordando, o normal com toda a gente, mas consigo tem um mas: a habitual fiabilidade da sua música faz com que eu queira sempre ouvir a letra, a cada canção nova que o senhor lança no mercado opinográfico. Hoje não foi excepção.

 

Acabei de ouvi-lo, aqui, numa colectânea que juntou 'Casas da Câmara' (não, não dos Câmara fadistas), 'Blogosfera' e 'Crise internacional', tudo acompanhado à virtude em repetidos trinados, ad nauseam. Para mim, ao ouvi-lo, é Deus no céu e o senhor na terra, os dois limpos de pecado. O que não me choca por aí além, cada um tem que ser de alguma maneira, o senhor é assim e pronto. Eu cá tenho um amigo que pesa dez arrobas e usa um casaco verde claro porque jura que fica mais magro com ele, puxa-me para conferir ao espelho e tudo, 'tás a ver? tás a ver?' E eu, que até nem vejo, nem por isso gosto menos dele. Não emagrece um grama o respeito que lhe devo. Na boleia desta imagem devo dizer-lhe que, à luz do acabei de ouvir na SIC, o meu caro Pacheco Pereira já esteve bem mais magrinho aos meus olhos. Deixe-me acabar, não me interrompa já. Esse seu impulso é bengala batida, permita-me antena que chegue para me explicar ou seguirei fatalmente na conta dos que o 'insultam de tudo na blogosfera', como acabou de dizer na SIC. Não é essa a minha intenção, e nem lhe peço que acredite: proponho-me demonstrá-lo, aqui e agora, com a irrefutabilidade que me nega o meio audiovisual onde tudo é fugaz e já passou, ninguém se lembra exactamente como foi. Deixe-me blogosferar, sem favor.

 

Vou começar por poupá-lo a uma pergunta idiota, não me agradeça que posso ter outras. Não vou querer saber se pertenço aos 99% que não prestam ou ao umzito que se aproveita desta blogosfera que assim dividiu porque sim, suponho. A menos que disponha de mais um 'insite', como os que citou, que lhe permita esse pesar a olho. É-me tão indiferente o lado em que me coloca nesse partir, como a si lhe será indiferente o que eu penso do seu cabelo, casaco ou óculos, se usasse. Que não usa, quando fala. Mas já não me é indiferente, nada mesmo, a opinião que emite sobre a blogosfera, o meio que uso neste momento para lhe dirigir estas linhas, nem o tom que usa para o fazer. É que é graças a ele que eu tenho o país a espreitar por cima do meu ombro e a ler o que agora lhe digo  -   alto, que digo eu? Tenho o mundo inteiro a poder fazê-lo. Sabe? Aquela coisa de usar isto como janela? Pois é, isso mesmo, queira o senhor ou não esta é a minha janela. Aqui sou o abrupto que posso, enfim, raramente, tento. Mas sou, aqui. Tanto quanto o senhor, por princípio. O ajuizar do bairro, do país, do mundo, em função da obra feita e aqui exposta  é que faz o resto e decide onde pousar mais vezes os cotovelos para ler a vida que passa. Não o senhor, nem outro ser superior qualquer. Ao contrário de si, eu acho que sempre tem mais poder o secretário de Estado.

 

Dirá o senhor que ontem não disse o contrário, com dois pigarros disparará que disse até que 'não sacrificaria esse um por cento por causa dos tais noventa e nove'. E se a coisa ficar feia (nunca com um pixote como eu, mas imaginemos assim um peso-mais-pesado) puxará dos galões que não lhe faltam, justíssimos.  E com olhar matador matará a discussão com argumento eficaz, porque literalmente verdadeiro. Foi de facto isso mesmo que o senhor disse, usando essas exactas palavras para que todos nós percebêssemos bem que era o exacto oposto o que queria que recordássemos. Chapeau, maestro. Mas de palha, barata, não autêntico e de feltro. Quim Barreiros faz o mesmo a cantar a garagem da vizinha.

 

Eu vi e ouvi o que o senhor disse. Eu sei e o senhor sabe que eu sei que o senhor sabe que eu sei o que o senhor disse. E os dois sabemos que estas coisinhas ditas, aparentemente compostinhas, letra e música, são a razão pela qual são os bons comunicadores que se fazem ouvir e não as grandes inteligências, que no mais das vezes são gagas ou fanhosas, nasceram assim, coitadas, como o tal meu amigo das dez arrobas nasceu gordo. Nem por isso merecem menos respeito, carinho, louvor, o que quiser, mas apesar disso raramente parecem aquilo que o espelho da verdade mostra serem de facto. Haverá casos em que  até coincidem, a capacidade e a capacidade de mostrar capacidade em tempo contado ao frame. São esses os artistas da comunicação. E é por ser esse o seu caso que me parece lamentável o que ficou dessa sua demonstração de ontem à noite, sobre a blogosfera.

 

Assistir a alguém que se arroga democrata plantar a semente da insídia neste terreno onde cresce a opinião, base de toda a democracia, sem o controle que no fundo lamentou faltar, é ver o próprio rei dizer que vai nu e ainda bricar com o pirilau num espectáculo grotesco. Assistir a António Costa a fazer o mesmo, ao classificar de submundo este mundo onde já procurou suporte com o seu Costa do Castelo é pior, quase. Mas há muito que o Dr. António Costa provou ser um conhecedor da ciência do pão com manteiga, que é como quem diz a ciência de saber de que lado está a manteiga no pão que se denta à vezinha, até que chegue o almejado bife do lombo. A dentes com boa alcatra, de momento, António, o Costa do castelo alfacinha, canta de galo porque no poleiro. Triste, confrangedor, mas outros tempos virão, estou certo. Só há que aguardar, que ele vai passar por aqui.

 

Por isso já vê o meu caro Pacheco que assistir a esta quadratura do círculo para ver emergir democrata, entre os três que não vêem nem ouvem mas falam, o que se senta à direita e ontem riu da esquerda com toda a razão, é cair de quatro na pior das realidades do pensamento e da opinião crítica nacional. E não é que foi na televisão e não na blogosfera?  E não é que foi com três homens bons e não com uns quaisquer maníacos do submundo do lixo? Foi uma quadratura diferente, esta, para mim. Aquela que deixou provado, sem sombra de dúvida, que o meu caro é o círculo mais quadrado que eu algum dia vi na pele de um auto-proclamado democrata. Com excepção provável no Dr.Mário Soares.

 

03
Out08

À atenção de toda a blogosfera

Rui Vasco Neto

Isto demora quarenta e seis minutos e dez segundos. Isto é importante que seja visto, comentado e debatido, na minha opinião. Em toda a blogosfera, a boa e a má, segundo Pacheco Pereira, um e noventa e nove por cento, respectivamente. Porque a blogosfera é um meio de expressão e de comunicação livre e supostamente independente. Sem sobas ou outros líderes, dinásticos ou de clube. Um meio de comunicação onde se exercita a inteligência e se exibe alguma opinião de valor, mesmo sem aval prévio dos críticos do costume. Por isso isto aqui fica. Vão vendo, pede o Pacheco Pereira e peço-vos eu, por especial favor, que já vi. E já volto para comentar, claro, mas só depois dos senhores verem. Tem que ser, acreditem. Até lá vou escrevendo. Quarenta e seis minutos devem chegar. Depois publico em dez segundos, sem espinhas.

*(demorou mas já está: aqui, carta aberta a PP)

03
Out08

Bom dia. Hoje temos sentença. E talvez justiça.

Rui Vasco Neto
02
Out08

Casas da Câmara

Rui Vasco Neto

O texto que vão ler não é um bom texto. O texto que vão ler não é um mau texto. Agora os senhores estão à espera que eu diga que é muito bom, que é lindo ou excelente, certo? Também não posso ir por aí, não lamento. É que este não é daqueles textos que se podem definir quantificando as suas qualificações, bom, mau, excelente, execrável, muito ou pouco. Merece não mais nem menos, mas diferente, para que seja de justiça esta introdução. Meus senhores: que texto delicioso me enviou o Tomás Vasques para esta nossa festa de aniversário do 7Vidas! Que coisa bonita e saborosa. Uma grande lição de vida, para mais, extraordinariamente oportuna nesta altura dos dias da nação, em que andamos todos a discutir se pinga na sala das casas de alguns dos nossos concidadãos, e se por isso ou apesar diso eles merecem mudança ou complacência de senhorio. Um desconto ou uma esmola, um favor ou mera justiça. Grande, grande lição, este texto. Dada como eu gosto, particularmente, com superior inteligência, encontrada na boca do povo, e pelo lado mais inesperado de um assunto que se julgava ou queria estanque e de acesso único. São infinitas as cores do talento, qual arco-íris, está visto. Tantas quantos lados tem tudo na vida.

Em baixo: "Casas da Câmara"

Sete vidas mais umaTomás Vasques 

 

 

A propósito da recente polémica à volta das «casas da Câmara», lembrei-me de uma conversa, há meia dúzia de anos, num percurso de táxi. Cheguei ao aeroporto de Lisboa num dia de Novembro, ao fim da manhã. Um sol outonal enchia a cidade de luz em dia de S. Martinho. Apressado, apanhei um táxi para a Rua de S. Bento. Mal iniciámos a marcha, disse ao taxista, à laia de meter conversa: - que dia bonito! Respondeu-me, prontamente, com ar de censura, como a querer contrariar-me, olhando pelo retrovisor: – Para quem trabalha os dias são todos iguais. Depois de uns segundos de silêncio, retorqui: - Não seja tão amargo com a vida. Mesmo para quem trabalha há dias bonitos. Meu amigo – disse-me, num tom de voz menos agreste, olhando-me sempre através do retrovisor – Vou fazer um desabafo: eu estou amargo, é verdade. E sabe porquê? Destruíram-me a minha vivenda. Você sabe o que é isso? Destruírem a casinha onde eu vivi durante trinta anos? Não sabe. De certeza que não sabe, por isso diz que o dia está bonito. Mas, eu explico se não o incomodo: - Nasci em Trás-os-Montes, na aldeia do Pessegueiro, concelho de Bragança. O senhor não sabe o que é nascer por trás do sol-posto, entre montes, pedras, galinhas e cabras. Desculpe, vamos pela Gago Coutinho ou pela Segunda Circular? Como eu quiser? O senhor é quem paga, o senhor é quem manda. Vim para Lisboa com dezoito anos acabados de fazer, completamente ao deus dará, sem eira, nem beira. A minha mãezinha, que Deus tem, deu-me o dinheiro à conta para a passagem de comboio. Não tinha nem mais um tostão. Coitada. Uma vida inteira a labutar de sol a sol. Para quê? Só para ter comida para a boca. Mais nada. Cheguei aqui em Julho de 1966, lembro-me como se fosse hoje. Estava um calor de rachar e não conhecia ninguém. Fiquei embasbacado com tudo isto. Calcorreei a cidade durante dois dias e dormi duas noites nos bancos da Avenida da Liberdade. Mas os tempos eram outros, melhores tempos, digo-lhe eu. Não me julgue mal. Eu não gostava do fascismo, ninguém gostava do fascismo. Isto assim, em democracia, é muito melhor: podemos correr com eles quando nos dá na gana. Correr com os que estão no poder, compreende? Eu voto sempre nos que lá não estão para ver se isto melhora. E pode-se falar à vontade. Dizer mal deste e daquele. É outra coisa. Mas ia eu a dizer: dois dias depois de ter chegado a Lisboa já estava a trabalhar como trolha. E era jeitoso no trabalho. Cumpridor, como ninguém. Cheguei a servente de pedreiro antes de ir para a tropa. Fiz pela vida, compreende? Mas não queria passar a vida inteira a carregar com baldes de cimento e de areia. Com o dinheirinho que trouxe do ultramar comprei um táxi. Como vê sou taxista, um profissional competente, com carro próprio e os impostos em dia. O carro já está a ficar velho, mas não devo um tostão a ninguém. Não sou como essa gente que anda por aí a comer em bons restaurantes, com bons carros, mas estão cheios de dívidas aos bancos. Estive na guerra do Ultramar. Em Angola. Está a ver aqui no meu braço: LUANDA, 1971, está a ver? E vê aqui, por baixo do coração: AMOR DE MÃE. Gostava muito da minha mãe, coitada, que a sua alma esteja em descanso. Morreu no Pessegueiro, por detrás daqueles montes todos, sem nunca ter vindo a Lisboa. Só foi a Bragança duas ou três vezes na vida. A minha mãe emprenhou, tinha trinta anos, ali mesmo debaixo de uma árvore. E o raio do moçoilo, mal ela lhe disse que estava grávida, desapareceu que nem um raio. Até hoje. Dizem que foi para França e que por lá se acomodou com outra. A minha mãe não era mulher para lamúrias. Ele – o meu pai – nunca me procurou. Nem sei se ele sabe que eu existo. E o que ela sofreu sozinha sem despejar palavra, sem um queixume. Até morrer, coitada. O senhor não sabe a dor de alma que é uma pessoa estar na guerra, tão longe, e receber a notícia da morte da mãe. Só vi a campa um ano depois. Mas não era isto que eu lhe queria contar. Vamos pelos Estados Unidos da América ou descemos a Almirante Reis? Almirante Reis, Campo Santana, Rua das Pretas, Praça da Alegria? É muito mais longe, mas o senhor é quem paga, o senhor é quem manda. A vida é uma merda, digo-lhe eu, e desculpe-me falar assim. Veja só o senhor o que me aconteceu: vivia eu sossegado com a minha Rosa numa vivenda na Musgueira Norte. Conhece? Ali mesmo por detrás do aeroporto. Era de madeira, mas eu já tenho visto filmes americanos com bonitas casas de madeira onde vive gente rica. Era de madeira, mas tinha muito espaço. E pagava só quinhentos e vinte escudos por mês. Dois euros e meio nesta moeda nova. Vivi ali com a minha Rosa desde que vim de Angola. Quase trinta anos, amigo. São muitos anos. É muita vida. Não temos filhos. Coisas dela, está bom de ver. Às vezes, com voz mansa para eu não me enfurecer, a minha Rosa diz-me que posso ser eu o culpado, mas quem acredita numa coisa dessas? Quem tem de parir é ela, não sou eu. Concorda comigo, não concorda? Namorei com a minha Rosa desde os dezanove anos. Conhecia-a num baile na sociedade recreativa de S. Mamede, ali ao pé do Largo do Rato. Conhece? Aos domingos à tarde lá estava eu com a minha melhor roupinha. Ela era muito jeitosa e muito pretendida. A Rosa tinha boas mamas, e eu sempre gostei de mulheres com boas mamas. Quando regressei do ultramar casei logo com a minha Rosa. Ela esteve aqui à minha espera, como uma santa. Até me dá vergonha dizer isto, mas é verdade: ela é a única mulher da minha vida. E também eu sou o único homem da vida dela. Fui eu que a desflorei depois de casarmos. Não foi como essas poucas-vergonhas que agora acontecem com estes jovens: quando casam já dormiram juntos tantas vezes que estão à beira de se separarem. É por isso que agora há tantos divórcios, sabia? Eu sei porque li há dias num jornal. No meu tempo não era assim. Mas eu queria contar-lhe porque é que estou amargo. Veja lá: os senhores da Câmara, com essas modernices de quererem acabar com as barracas e quererem meter toda a gente em prédios de cimento, começaram a deitar abaixo aquilo tudo. Eu já lhe disse que não vivia num barraca? Aquilo era uma vivenda. Tinha dois pisos. Era toda de madeira, mas tinha dois pisos. Fui eu que construí o piso de cima com madeira que ia comprando aos poucos. Com estas mãos calejadas que aqui vê. E só pagava quinhentos e vinte escudos pelos dois pisos. Agora, meteram-me num andar pequenino e mal construído. Muito mal construído, garanto-lhe eu que percebo da poda. Fui servente de pedreiro antes de ir para a tropa. O táxi veio depois. Protestei, mas os senhores da Câmara disseram-me que para mim e para a minha Rosa chegava. Que haviam outras famílias que precisavam mais do que eu. Quem tem filhos tem direito às casas maiores, disseram-me eles. Isto assim dito até parece que faz sentido, mas não faz sentido nenhum. Gostava de ter filhos, mas a Rosa não lhe deu para isso. Nem sei a quem vou deixar o táxi. O que é que os senhores da Câmara sabem da minha vida para decidirem que aquele andar só com um quarto e uma sala chega para mim e para a minha Rosa? E sabe que mais, amigo? Está tudo mal construído. Está tudo tão mal construído que até as paredes são de “pladur”. Veja bem: agora, depois de me mudar para aquela casita, para acalmar a minha Rosa é um transtorno. Aí há dias, por causa da merda da casa, e peço desculpa outra vez, veio à baila a conversa dos filhos. E ela a querer, outra vez, passar a culpa para cima de mim. Sabe o que é que ela me disse? Que ainda estava a tempo de tirar as teimas indo para a cama com outro homem. Isto é coisa que se diga a um marido? Amigo, falo-lhe com o coração: se fosse na nossa vivenda, aquela que os senhores da Câmara demoliram, a Rosa tinha apanhado um soco nas trombas que até voava. Mas ali tive que me conter. Está a ver? As paredes são de “pladur" e eu tive medo que ela fosse parar à casa do vizinho. Já viu o transtorno que isto me causa? Já viu porque para mim não há dias bonitos? Porque tenho que viver numa casa da Câmara.

 

Tomás Vasques

(blogger do 'Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos')

 

01
Out08

Hoje é o dia mundial do meu amanhã

Rui Vasco Neto

Os dias mundiais disto e daquilo irritam-me um nadita, confesso. Ele é o dia da árvore e lá vai ministro com pazinha para plantar uma, o dia sem carros e lá vem presidente de helicóptero para andar a pé, o dia do livro e toma lá uma injecção cultural que dê até para o ano e pronto, já está. E no resto do tempo novelas e Herman, Goucha e Malato, manhã à noite. Daí a irritação, embora zinha. Mas também quase tudo me irrita, por estes dias. Estou velho, é o que é. Pois nem de propósito: hoje é o Dia Mundial do Idoso, outra palavrinha que me arrebita o pelame, tamanha a irritação. Idoso é o quê, exactamente, uma espécie de delicadeza esfarrapada que se usa em vez de 'velho', a vaselina, um amaciador? E delicadeza porquê, se há lá coisa mais linda e terna que a velhice digna, brancos genuínos e olhar antigo, amor velho e gasto de dores e coração velho e gasto em amores? 

 

Eu cá julgo saber porquê, talvez: a culpa, a hipocrisia, a vergonha de cão e a consciência social pesada que ficam do tratamento dado à maioria dessa minoria, nos tempos que correm, tal como a outras, de resto, no nosso viver colectivo. Talvez seja isso, quem sabe? Reparem que há quem não diga, apenas escarre, 'velho' ou 'preto', por exemplo, caso igual. Mas as palavras são o que são e dizem apenas o que com elas quer dizer a sociedade que as inventa e usa no seu viver. A carga que leva cada uma vai na vontade do freguês, invente-se uma ASAE para o preconceito e a coisa melhora, estou em crer.

 

Por mim já jurei, todos sabem, os que ainda têm pachorra para me ouvir as juras e mais os poucos de entre esses que ainda vão acreditando nelas: deixem passar mais uns aninhos, só vos digo isto. Deixem lá passar mais uns aninhos e o primeiro que me chamar idoso apanha, tá jurado, seja próximo ou afastado, desde que esteja suficientemente próximo para eu lá chegar com a bengala. Vou atravessar as ruas devagarinho, muito devagarinho e rosnar "Idoso é o teu avô, ó pá!" ao primeiro sacaninha que se atrever a ser condescentente e paternalista com a minha velhice. Ando até já a treinar ao espelho, sempre que posso. Só espero que nessa altura ainda consiga esticar o dedo médio, pelo menos. Senão a coisa não resulta tão bem.

01
Out08

Do Nordeste à Povoação

Rui Vasco Neto

Sente-se, por favor. A viagem vai começar. Esqueça o cinto e pode até beber que não vai conduzir mas sim ser conduzido, por mão de mestre, sobretudo nestes caminhos que ele conhece como ninguém. Por dentro e por fora. Sabia que os caminhos têm um lado de dentro? Pois é, têm mesmo, um lado dentro da gente e feito de Vida sob incontáveis formas que, dizem, Deus criou numa semana de particular inspiração. Pois o meu amigo Daniel de Sá, caminheiro com provas dadas em muita prosa andada, muita alma lida, leva-nos hoje pelos caminhos mágicos da minha ilha, da nossa ilha. Depois de Santa Maria, é em S.Miguel que ele se sente mais à vontade para cirandar, nas mãos o bordão das palavras e no peito uma oração reverente por cada maravilha que vai descobrindo, na terra ou na gente. E hoje, generoso, desce à partilha connosco. Por isso sente-se, se faz favor. A viagem vai começar.

 

Em baixo: "Do Nordeste à Povoação"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

O viajante esquece a beleza triste dos povoados por que passou. Tinham todos a cor dos dias cinzentos do Inverno. Como se nunca houvesse sol durante o dia nem luar nas longas noites. O que aquela gente sofre por estar viva! Há em todos, no entanto, uma delicadeza natural, uma boa educação que lhes anda agarrada à alma como as urzes e as queirós nas ravinas mais inacessíveis. Muitos anos mais tarde, até os lavradores e o gado, entre pasto e pasto, hão-de passear por caminhos de asfalto. E a beleza triste e cinzenta dará lugar a um permanente arraial de cor. Desde a Salga, com os seu jardins de caleidoscópio, até à apoteose da Vila do Nordeste, o viajante há-de surpreender-se com as flores à beira dos caminhos, nas casas e nos quintais, ou mesmo cobrindo os troncos de palmeiras na Fazenda.

 

Passando a ribeira dos Caimbos, num longo rodeio pelo sopé do Lombo Gordo, o viajante muda de concelho. Mas a paisagem não sabe disso, e permanece igual. Montanhas à direita, o mar à esquerda. Ravinas, arribas, precipícios. Sempre entre o susto e o sonho. Vem aí Água Retorta, ou vai-se por aí a Água Retorta, que dá as boas-vindas a quem uma légua atrás entrara no concelho da Povoação. Se fosse ave ou vento, teria andado metade disso somente. E, sendo a terra tão enrugada, tão áspera para caminhar nela e tão suave para nela pôr os olhos, acaba-se a pique sobre o mar, onde cai volteando a água de uma ribeira que, por ser assim, recebeu nome e o deu ao povoado. Um povoado que parece dois. Porque em terra chã fica o núcleo à volta da igreja, que é de Nossa Senhora da Penha de França, e mais acima se desenvolveu outro, obedecendo aos declives do lugar.

 

O viajante não sente cansaço, porque cada recanto visto é um prémio para a longuidão da jornada. Mais outra légua, chega à estrada que desce para o Faial da Terra. Caminho que é de ida e volta, e que se torce e retorce para não ser quase vertical. E de repente a terra se faz plana, pequena fajã que uma ribeira atravessa dividindo o povoado em duas partes. Voltando as costas ao mar, pode parecer que se está numa aldeia dos Alpes. E as ondas não precisam de se elevar muito para respingarem a terra que ali lhes fica quase resvés. Um pouco mais de ânimo, e podem até acabar como que ajoelhadas à porta da igreja de Nossa Senhora da Graça.

 

Por entre os montes que encaixilham a paisagem, uma dúzia de casas às quais o tempo esvaziará de gente e as intempéries se encarregarão de esventrar, de cegar as janelas, de escancarar as portas. É o Sanguinho. Mas aquelas casas hão-de ser depois recuperadas, reabilitadas, calafetadas, electrificadas, canalizadas. Para fingirem ser o que eram em condições de bem receber turistas. Não importará, porque a natureza há-de permanecer igual e milenar. Viver ali só poderia ter sido ideia de poetas, de eremitas ou de pobres.

 

(texto inédito a ser incluído em livro a publicar pela Ver Açor.)

 

01
Out08

Gatos e Cães

Rui Vasco Neto

E pronto, entrámos em Outubro. Para o final desta festa de aniversário do 7Vidas faltam cinco dias e alguns convidados, que fizeram questão de marcar presença com as suas palavras. A escritora Soledade Martinho Costa é um desses casos. Ex-blogger do AspirinaB, de onde saiu para criar o seu Sarrabal, com vasta obra publicada e espalhada por várias editoras, a Sol é das visitas mais regulares cá da casa, faz parte do núcleo duro, chamemos-lhe assim, aquele que eu chamaria se fosse o Bush (credo!) para reunir de emergência e dar conselhos ao mundo. Wall Street afundar-se-ia na mesma, suspeito, mas a poesia e a literatura sairiam a ganhar, disso não tenho dúvidas.

Em baixo: "Gatos e cães"

Sete vidas mais umaSoledade Martinho Costa 

 

Tenho encontrado um pouco de tudo neste blog: brincadeira, humor, crítica, desabafos, notícias, poemas, textos eruditos. Mas, sobretudo, encontrei um coração grande, o do seu bloguista, aberto ao Mundo, lavrando o seu protesto contra as arbitrariedades, a incapacidade de amar o próximo, a incúria, a prepotência, a maldade, a tragédia, o drama.
 
A tocar na «ferida» e a deixar que as palavras, uma a uma, cheguem ao leitor menos atento ou sensível aos problemas alheios. Se nos calha uma dessas palavrinhas, quem sabe se o Mundo não pode melhorar um pouco mais? Se não nos dá um pouco mais de consciência, de responsabilidade, de solidariedade? Se o egoísmo deixa de governar o planeta em que vivemos?
 
O Rui, brilhante jornalista, tem feito isso. Com mão de mestre. Ao despertar em mim um sorriso ou uma gargalhada quando leio os seus posts, não quer isso dizer que não atinja o alvo sempre que as suas palavras fazem assomar uma lágrima aos meus olhos.
 
Em ambos os casos, um bem-haja e que conte muitos aniversários! Afinal, temos quase «a mesma idade», o meu Sarrabal fez um ano no passado mês de Julho (dia 23) e o 7Vidas agora, em Setembro.
 
Adoro gatos. Adoro cães. Não conheço o Gastão. Nem tenho o gosto de conhecer pessoalmente o dono do Gastão. Por email e por telefone, sim. A blogosfera tem destas coisas. Apenas conheço de longa data as sete vidas dos gatos. Uma de cada vez. Morrendo e renascendo. Embora rejeitando. Dizendo que não. Que não é mais possível. Que não se é capaz. Mas voltando sempre à vida mesmo depois de sete mortes. Para viver outras sete vidas, como os gatos.

 

01
Out08

Ainda as pulseiras de Magritte (parte II e conclusão, acho)

Rui Vasco Neto

No princípio era o verbo. Comentar. Comentar os comentadores e as lentes que usam na opinião. Vale a pena recordar, contextualizando. Escrevendo sobre o debate Obama/McCain numa perspectiva assumidamente republicana, 'O Cachimbo de Magritte' publicou este post e mais este post (insistindo dois dias depois com esta gracinha, triste), a propósito dos quais eu escrevi este post e (noblesse oblige, como dizem os inglesesdeixei comentário no post original com essa mesma informação. O resto é história, uma que pode seguir nestes comentários. Pode e deve, digo eu. Afinal, não é todos os dias que nos aparece a oportunidade de explicar a 'parcialidade' às crianças, com bonecos e tudo. Perdão, cromos.

 

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