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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

21
Dez07

Separados à nascença

Rui Vasco Neto
Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém

Venho da terra assombrada
de um ventre que ninguém tem
o nome do pai é nada
e nada é o nome da mãe
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci
Dispenso o que me é devido
paciência, já cá estou
só não queria estar perdido
sem saber para onde vou
Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr
Fome já não tenho há dias
e os olhos, só de chorar,
enchem-me as horas vazias
com a promessa do mar
Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada
Venho do fundo do tempo
e tempo é o que mais tenho
minha barca aparelhada
afundou-se em pouca sorte
e com ela o passaporte
para a fronteira fechada
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham
Os ventos não me são bons
as marés pouco me arrastam
e as forças que me molestam
são correntes que me matam
Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu
Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu
Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar
Desculpem, dêem licença
tenho outra barca comprada
que eu quero que quem me vença
mate o meu corpo no mar
desculpem, deixem passar
volto para a terra assombrada.


(Rómulo de Carvalho, in 'fala do homem nascido' 1972)
(rvn, hoje, prenda de natal para o cantigueiro)

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