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Sete Vidas Como os gatos

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27
Nov07

Macho que é macho

Rui Vasco Neto
Macho que é macho é assim mesmo. Não vacila, não transige, não facilita. Numa só palavra, não dá abébias. Ponto. Com um macho que é macho, só existem estas duas hipóteses: ou as coisas são como ele quer, ou as coisas são como ele quer. Não há uma outra alternativa. Não se contraria o macho, pode resultar perigoso para quem se arriscar. Se houver uns copitos pelo meio os argumentos podem mesmo ganhar o peso da mão, dos pés ou da cadeira que estiver mais a jeito nessa altura. Quem manda lá em casa é ele e isso não tem discussão, é ponto assente. E ponto final.

Uma médica do centro de saúde de Bragança encaminhou para o Ministério Público um caso de violência doméstica de que foi vítima uma jovem grávida e que levou à morte do feto de 28 semanas. A notícia surge a propósito de mais um dia internacional contra a violência doméstica, divulgada por uma médica do Centro de Saúde de Bragança. Tratou-se de "uma agressão física por parte do companheiro, ela nunca deixou transparecer qualquer indicador de maus tratos, apenas de violência psicológica", explicou Fátima Ramos.

Esta caracterização do caso presente fez-me recordar uma senhora que eu conheci no Funchal. Era empregada doméstica, com vontade e boa disposição, competente no que fazia. Falava pelos cotovelos, é certo, mas trabalhava bem e acabava por ser divertida nos seus dias bons. O resultado prático de tanto palrar é que eu acabei por ouvir um naco substancial dos problemas existenciais da D.Maria, assim se chamava. E no dia em que me apareceu com um olho inchado e a boca ferida, o lado esquerdo da cara todo roxo, a confidência foi inevitavel. Abriu-se-lhe a alma em catadupas de palavras pingando de lágrimas contidas há tempo demais, provavelmente. E lá me contou a história do arrufo do marido, coisa de resto não rara no seu dia a dia.

Aconteceu então que estavam todos á mesa, ela mais o marido e mais três dos cinco filhos do casal. Palavra puxa palavra, lá por causa da sopa que não sei quê ou da carne que não sei quantos, o facto é que o ‘meu João’, como ela dizia, levantou da mão e mandou-a calar com uma chapada que a estendeu de costas no chão. Os filhos berraram, um deles apanhou também, a comida voou para todo o lado, enfim, uma confusão de se lhe tirar o chapéu. Mas o que a D. Maria guardou de mais importante de todo o episódio, aquilo que chegou a ser enternecedor aos seus olhos, era aquilo que ela agora me contava, de lágrima a escorrer sem parar. O seu filho mais velho, numa atitude que a deslumbrou, impôs-se ao pai enraivecido. “Levantou-se, sr. Rui, agarrou no braço do meu marido e disse-lhe: vocemessê só bate na minha mãe quendo ela merecer, ouviu? Ai, sr. Rui, meu rico menino!!”.



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