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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

02
Jul08

Carta a um merdas qualquer

Rui Vasco Neto

Meu merdas, de que te queixas?

Porque vives a carpir,
dia a dia, hora a hora,
da sina, dizes tu, triste
que te calhou ter em sorte?
Ai, que é triste, ui, tão triste...
Será triste porque deixas,
não me queiras iludir
que o meu coração não chora
por menos que a própria morte.
 
Vê lá como as coisas são:
deu-te Deus força e talento,
fez-te assim, um tal portento
que os outros vêem, tu não,
meu merdas, que não tens tino!
Por que raio esperas tu?
Talvez que te saia do cu
o teu bem guardado destino...
Ou então que seja o mundo
a escrever as tuas deixas,
que lerás de trás para a frente
armado em original,
o um entre toda a gente...
Patético vagabundo,
não vais a bem nem a mal,
meu merdas, de que te queixas?
 
Perdoa se te magoo.
Não é por mal, bem o sabes,
mas não é porque te doo
que vou deixar que me enrabes
com essa tanga do triste.
Triste uma porra, qual triste!
Amigo: o amor existe,
só não vai buscar-te a casa,
puxar, arrastar-te a asa,
arrancar-te desse ninho
que fizeste nos teus medos
e onde te escondes, sozinho...
Anda, não tens mais segredos
para quem te lê na alma
como em qualquer livro aberto.
Aceita isto com calma:
para homem de mil enredos,
nem sequer és muito esperto.
 
Tens erros de avaliação
que não lembram ao diabo:
dizes sim quando era não,
assim quando era assado,
fazes trinta numa linha
e das linhas trinta e um.
Não tens critério nenhum
quando era suposto ter.
Eu cá insisto na minha:
não tens jeito para viver.
São tantas as portas que fechas
com voltas na fechadura,
meu merdas, de que te queixas?
Só pode ser da fartura.
 
Amigo: mais não chateio.
Este vai-se como veio,
sem pecado original.
Não quis dizer de ti mal,
penso de ti o melhor,
(enfim, o melhor que posso
atendendo às circunstâncias)
o que não é mau; afinal
(fica um segredo só nosso)
na escala das importâncias
convirás que não me deixas
grande margem de manobra:
pões primeiro o teu pior,
só depois lá mostras obra...
Meu merdas, de que te queixas?
Estuga o passo, faz-te à vida,
(tenta a conta e a medida,
há quem diga que resulta…)
caga quando alguém te insulta,
fica na tua e trabalha.
E não me fodas: tens sorte
não te ter escolhido a morte,
ainda. Que essa não falha.

 

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