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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

15
Jul08

Olhe, pssst, se faz favor, isto é um assalto, por obséquio. Sim?

Rui Vasco Neto

Se repararem é coisa não rara, antes um fenómeno assim a dar para o regular. De vez em quando lá aparece mais uma destas 'curtas' na imprensa diária, a contar mais um assalto a uma dependência bancária levado a cabo por mais um ladrão solitário, solícito e educado, sem grandes aparatos de artilharia e quase sempre sem qualquer violência no modo de operar. Simples e funcional. Chega e entra, leva e vai. Em meia dúzia de linhas, na secção dos casos de polícia, a 'curta' traz a hora e o local, as circunstâncias dos presentes na ocasião e as linhas muito, mas mesmo muito gerais dos testemunhos oculares. Pouco mais, geralmente. É sempre omissa quanto aos valores roubados, facilidades dos métodos utilizados ou quaisquer outros pormenores que possam ser reveladores do sucesso factual do assalto em si, (momentâneo ou não), sempre um embaraço indisfarçável para as autoridades. Não só pela impressionante quantidade de assaltos com estas características, suspeito, mas principalmente pelo elevado percentual daqueles que são bem sucedidos.

 

Devo dizer-vos que estes factos não são, para mim, necessariamente indicadores de ineficácia policial, antes são absolutamente esclarecedores da dificuldade em estabelecer um perfil padronizado deste profissional especializado, digamos, face à incrível variedade de figuras humanas que já foram descobertas debaixo desta pele de ladrão. Polícias, por exemplo, já aconteceu e acontece, não tão raro. Um dos casos exemplares de polícia/ladrão que recordo foi notícia há bem pouco tempo, um militar da GNR que fazia vida dupla assaltando bancos na linha do Estoril. Foi apanhado no dia em que tentou três vezes roubar a mesma agência com um método singular: entrava, direito ao balcão e entregava ao primeiro funcionário uma folha que dizia "Isto é um assalto: passe para cá o dinheiro."  Três vezes lhe disseram que não, naquele dia em Sassoeiros, na última foi preso, já na rua. Terá usado a mesma técnica em sete assaltos, diz a polícia, alguns consumados outros nem tanto: "Sempre que os funcionários se recusavam a dar o dinheiro saía das agências sem violência", confirma fonte policial.
 

A história dos assaltantes solitários é multifacetada no que concerne aos personagens que lhe vão escrevendo as muitas páginas desta colecção sem fim à vista. Verdadeiras figuras de culto, como Arséne Lupin ou Gino Meneghetti, criaram a lenda do ladrão charmoso e elegante que não só nunca era apanhado como ainda coloria a imaginação aventurosa do mulherio, esse público fácil dado a frémitos espinais perante a audácia criminosa e rico em arrepiozinhos entrecoxas ao menor sinal de perigo. E assim ganhou o mito os seus seguidores aplicados, em versões personalizadas e modernas, gente insuspeita que vive duas vidas e um grande segredo. Que eles existem, isso não deixa dúvidas o historial de casos por resolver envolvendo assaltantes solitários e misteriosos. E a verdade é que há bem mais do que aqueles que se sabe existirem de certeza: os apanhados. Muitos outros são apenas fantasmas para as autoridades, durante anos e anos, vidas inteiras vividas sob uma capa de impecabilidade social, figuras proeminentes, até, das sociedades locais de que fazem parte activa. No Algarve dos anos 40, 50, por exemplo, fez história o caso do ladrão de residências que durante mais de trinta anos 'limpava' as casas de vizinhos e conhecidos enquanto os sabia no cinema ou em festas que ele próprio frequentava, marcando presença e sendo visto, para depois sair furtivamente e transferir todos os valores roubados para um esconderijo situado na sua própria residência, em Faro, na mesma rua de muitos dos assaltados. Foi esse mesmo esconderijo, um sótão falso de umas águas furtadas, descoberto após a sua morte, que viria a ser a única prova que fez a vizinhança acreditar que aquele homem pacato, honesto e trabalhador, tinha vivido duas vidas no tempo de uma, enganando o mundo inteiro mesmo debaixo do nariz de toda a gente.

 

Temos assim de tudo um pouco, neste ramo da ladroagem. Desde o impulsivo desesperado que arrisca tudo impensadamente por ter nada a perder, improvisando a cada passo, até ao profissional do gamanço que não descura pormenores e é meticuloso e preciso no seu modo de operar, os assaltantes solitários compõem um universo de diferença que tem um único ponto comum: 'trabalham' sozinhos. O caso mais recente e conhecido é sem dúvida o de Jaime Giménez Arbe, "El Solitario", o assaltante de bancos que era o mais procurado em Espanha, acusado da morte de dois agentes da Guardia Civil durante um assalto e preso o ano passado na Figueira da Foz. Durante os catorze anos que durou o mito de 'El Solitário', altamente explorado pela comunicação social espanhola, Jaime terá assaltado dezenas de bancos em toda a Espanha, e são-lhe imputadas também três mortes nesse processo. No entanto, Arbe desmente a autoria de muitos desses assaltos, tão categoricamente como assume a responsabilidade da maioria; e não é o único a defender a tese que alguns deles poderão ter sido praticados por imitadores nunca identificados e que ficarão a dever a sua impunidade à convicção policial. E a sua liberdade, também. 

 

Pois eu cá, no meu álbum de recordações de reportagem, também tenho um assaltante solitário. E que solitário, devo dizer-vos! Uma figura de antologia, um francês que durante mais de uma década veio a Portugal, todos os Verões, para aqui praticar dois assaltos por época. Dois assaltos em três meses, era a regra, nem mais um e tudo corre bem. E correu, durante todos esses anos. Foi apanhado no único ano em que cometeu o erro de infringir a sua própria regra e arriscou o terceiro assalto, que viria a deixar uma pista que a Judiciária de Faro, ao tempo dirigida pelo não menos lendário Sousa Marins, seguiu até encontrar o homem numa bomba de gasolina, atestando o seu carrinho já em plena viagem de regresso. Baixinho e franzino, este assaltante que operava sob um disfarce mínimo (óculos, bigode e cabeleira, nada mais) mas eficaz, proporcionou uma cena de captura absolutamente memorável. Surpreendido desarmado e em calções de banho, enfrentou os três agentes que o tentavam prender e por pouco não levava a melhor, tendo causado ferimentos ligeiros em dois deles, até ser manietado, algemado atrás das costas e metido dentro do carro da polícia no banco traseiro. Pois mesmo aí, depois de ter enganado os agentes com uma história de que tinha deixado cair droga no chão durante a luta e enquanto os três agentes esquadrinhavam o chão à procura da tal droga, conseguiu a façanha de saltar para o volante (sempre algemado atrás das costas), ligar a ignição, meter a mudança e acelerar, arrancando com o carro.

 

Esta história passou-se em 95, 96 talvez, e eu nunca esqueci este assaltante solitário com cuja aventura fiz capa e centrais do Tal&Qual, na altura. E recordo-me do inspector Sousa Martins dizer que também ele não tinha memória, ao tempo e em tantos anos de serviço, de uma figura com o perfil deste homem que conseguiu enganar as autoridades durante tantos anos a assaltar bancos sem ser detido ou sequer identificado, usando apenas meios e processos da maior simplicidade. Veio a apurar-se que se tratava de um cidadão sem mácula no seu meio, onde vivia uma vida irrepreensível e familiar. A sua carreira de ladrão terminou nesse dia e nessa hora em que, como estava a contar, conseguiu arrancar com o carro da PJ em alta velocidade... mas em marcha-atrás, por engano, uma vez que a viatura (um Golf que tinha sido apreendido pela polícia a um cidadão estrangeiro) tinha uma característica de fabrico invulgar: a marcha-à-ré estava no lugar da primeira velocidade. Assim, a fuga deste solitário terminou contra a parede exterior da discoteca Kadoc, onde o carro embateu e se espatifou, para dali não sair mais. E a ele, que lhe aconteceu? Bom, tanto quanto sei da lotação das cadeias, acho que deixou de ser solitário.

 

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