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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

23
Out07

Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado.

Rui Vasco Neto
Amália morreu e o país inteiro pôs luto. O povo chorou. E chorou sentido, quero crer, que Amália era mais que Amália para toda a gente. Presidentes e ministros, doutores e engenheiros das dores e das obras, vieram a terreiro dissecar, classificar, explicar e perorar sobre o mais profundo significado de cada entoação da diva, cada gesto, cada ai. E Amália tinha muitos ais. Os ais de toda uma geração de portugueses moravam na voz da senhora do fado, porque era o fado uma casa d'ais por excelência. Era o Portugal do conforto pobrezinho, no lar onde só há fartura de carinho, da minha alegre casinha tão modesta como eu.
Muitos anos de D.Perignon não apagaram em Amália a memória do seu próprio conforto pobrezinho num passado distante. E quis vida depois da morte para essa memória. Por isso determinou e deixou escrito: o que deixava de seu era para servir aos pobres. Mais o dom da sua voz.

Com o corpo de Amália no Panteão Nacional, a sua alma foi colocada na Fundação Amália Rodrigues, criada em 1999 com o intuito de ajudar pessoas desfavorecidas e apadrinhar instituições de beneficência e de solidariedade social. Com sede na casa onde a fadista vivia, a S.Bento, gere os bens de Amália Rodrigues, terrenos, apartamentos, a conta bancária, jóias e pratas. E tem uma dívida acumulada ao fisco de dois milhões e trezentos mil euros, nada mais, nada menos.

Na passada sexta-feira, uma portaria publicada no "Diário da República" declarava a fundação com o nome da fadista Amália Rodrigues "pessoa colectiva de utilidade pública". Com a condição de comprovar a regular constituição dos órgãos sociais e a inexistência de dívidas fiscais à Segurança Social. Na sua edição de ontem, o jornal "Correio da Manhã" chamava a atenção para o artigo 11.º A do Estatuto dos Benefícios Fiscais, que obriga os responsáveis da Fundação a pagar a dívida para o estatuto de "utilidade pública" ser considerado válido. E Amadeu da Costa Aguiar, o presidente da Fundação, logo veio garantir que "a dívida ao Fisco de 2,3 milhões de euros da Fundação Amália Rodrigues deixará de existir com a concessão do estatuto de utilidade pública". Isto resume o assunto, no que toca ao Fisco e ao Estado e à legalidade. Sobra um pormenorzito de somenos.

Desde o dia em que foi criada até ao dia de hoje, a Fundação Amália Rodrigues não concretizou um único dos objectivos que presidiram à sua instituição, para amostra. Não consigo vislumbrar uma única razão, para amostra, que possa levar o Estado português a considerá-la Instituição de Utilidade Pública agora, a não ser uma razão de utilidade privada como uma dívida de 2,3 milhões de euros ao Fisco, por exemplo.

Estranho fado, o da memória de Amália. Triste fado e de autoria duvidosa. Certo mesmo só o tal pormenor, provavelmente sem qualquer significado. É que desde o dia em que se sentou na cadeira da presidência da Fundação Amália Rodrigues, em 1999, a única decisão oficial conhecida de Amadeu da Costa Aguiar foi a de nomear um presidente vitalício para gerir os destinos e os dinheiros da instituição, mais o pinga pinga da saudade da diva. Chama-se Amadeu da Costa Aguiar. Triste, convenhamos. Mas fado. Definitivamente, tudo isto é fado.

RVN

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