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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

14
Jan08

Eu sou a arte do possível ou o possível de quem não tem arte?

Rui Vasco Neto
Eu sou grande, enorme, imenso. Enfim, médio, por estes dias. Mas bonito, acatitado, glosado, cantado e lindo como as estrelinhas que há no céu. Sou orgulhoso e raçudo, pergaminhado de pai e mãe, primos, tios e avós. Sou História e sou tradição, sou costumes e folclore, povo e mar com fartura. Sou mestiço, poliglota (e anedota que não se esgota), da minha elite ao chinelo. Eu sou belo. E sou castiço, sou típico e invulgar. Sou de amar. Sou de odiar. E detesto que me mintam. Sou tão mau como me pintam, quando me emprenham e fogem. Quando me prometem rosas e eu só pico o cú em espinhos, em busca da flor prometida. Que porra de vida, esta, a minha única vida... Eu sou Portugal inteiro, desde o norte até ao sul, deste 'pois, enfim' geral que é ter uma classe política eternizada nas minhas dificuldades e carências para assim sobreviver, profissional, técnica e politicamente falando. Ou quero dizer, prometendo, se calhar, quem sabe, pá! Ao 'deixa andar' nacional? Um referendo geral. Já.

"O Governo entende que é necessário reforçar a legitimação democrática do processo de construção europeia, pelo que defende que a aprovação e ratificação do Tratado deva ser precedida de referendo popular, amplamente informado e participado, na sequência de uma revisão constitucional que permita formular aos portugueses uma questão clara, precisa e inequívoca", era a intenção de Sócrates posta em letra de programa governamental. Mas a política é a arte do possível, diz a moderna divisa deste moderno colégio de homens bons e modernos. Pois lamentavelmente não foi possível, tenham paciência, vão para dentro, não se macem. O tratado que estava para ratificação na altura das eleições de 2005 era o constitucional. Este foi posteriormente chumbado em referendos realizados na França e na Holanda, deixando de fazer sentido que os restantes países continuassem com os seus processos internos de garantir a aprovação de um documento que só podia entrar em vigor se recebesse luz verde de todos os países da União Europeia. Posteriormente, os Estados-membros negociaram outro tratado para substituir o anterior, e terão firmado um acordo informal para que ninguém, além da Irlanda, avançasse com a realização de um referendo. O documento foi assinado em Lisboa, em Dezembro de 2007. E a 9 de Janeiro, no Parlamento, José Sócrates pôs termo a um tabu que durava há meses sobre a forma como Portugal ia aprovar o Tratado de Lisboa.

"A agenda económica do Governo tem como objectivo aumentar, de forma sustentada, o crescimento potencial da nossa economia para 3%, durante esta legislatura. Só com o crescimento da economia poderemos resolver o problema do desemprego e combater as desigualdades sociais", era a intenção de Sócrates posta em letra de programa governamental. Mas a política é a arte do possível, diz a moderna divisa deste moderno colégio de homens bons e modernos. Pois lamentavelmente não foi possível, tenham paciência, vão para dentro, não se macem. As últimas projecções conhecidas para a economia portuguesa foram divulgadas pelo Banco de Portugal há duas semanas. Para 2009, o banco central prevê um crescimento de 2,3 por cento e para este ano a projecção passou dos anteriores 2,2 para 2,0 por cento. O próprio governo já afastou a meta eleitoral dos 3 por cento das seus próprios cenários. A última actualização do Programa de Estabilidade e Crescimento aponta uma taxa de crescimento da economia de 2,8 por cento no último ano da legislatura, sendo a mais optimista das que são conhecidas.

Tanto durante a campanha eleitoral como nas primeiras semanas de governo, José Sócrates disse que não ia baixar mas também garantiu que não ia aumentar impostos. Dois meses após as eleições, em entrevista à RTP, reforçaria a promessa: "Não vamos aumentar os impostos porque essa é a receita errada." E, referindo-se ao aumento do IVA do anterior governo do PSD, de 17 para 19 por cento, disse que não ia "repetir os erros do passado". Era a intenção de Sócrates posta em letra de programa governamental. Mas a política é a arte do possível, diz a moderna divisa deste moderno colégio de homens bons e modernos. Pois lamentavelmente não foi possível, tenham paciência, vão para dentro, não se macem. Três meses após a eleição e um mês após aquela declaração à RTP, o Governo aumentou o IVA de 19 por cento para 21 por cento e os impostos sobre produtos petrolíferos e tabaco. Criou também um novo escalão de IRS de 42 por cento (o anterior escalão máximo era de 40 por cento).

"Quanto às Scut [auto-estradas sem custos para o utilizador], deverão permanecer como vias sem portagem enquanto se mantiverem as condições que justificaram, em nome da coesão nacional e territorial, a sua implementação, quer no que se refere aos indicadores de desenvolvimento sócio-económico das regiões em causa, quer no que diz respeito às alternativas de oferta no sistema rodoviário", era a intenção de Sócrates posta em letra de programa governamental. Mas a política é a arte do possível, diz a moderna divisa deste moderno colégio de homens bons e modernos. Pois lamentavelmente não foi possível, tenham paciência, vão para dentro, não se macem. Em Outubro de 2006 o ministro Mário Lino anunciou a introdução de portagens em três auto-estradas gratuitas: Costa de Prata, Grande Porto e Norte Litoral. As portagens deviam ter sido introduzidas em 2007, como foi várias vezes garantido pelo ministro das Obras Públicas, mas a renegociação dos contratos com as concessionárias e a solução tecnológica atrasaram o dossier. O Governo mantém a intenção para 2008.

"Portugal deve ter como objectivo recuperar, nos próximos quatro anos, os cerca de 150.000 postos de trabalho perdidos na última legislatura", refere o programa do Governo. Durante a campanha eleitoral de 2005, foi divulgada a taxa de desemprego referente ao último trimestre de 2004: 7,1 por cento. José Sócrates comentou na altura: "Trata-se de um valor trágico. As coisas estão piores em Portugal, tanto na economia como no desemprego. Este indicador prova que há muito tempo que deveriam ter soado as campainhas de alarme e prova que Portugal atravessa uma crise social muito significativa.". Era a intenção de Sócrates posta em letra de programa governamental. Mas a política é a arte do possível, diz a moderna divisa deste moderno colégio de homens bons e modernos. Pois lamentavelmente não foi possível, tenham paciência, vão para dentro, não se macem. A taxa de desemprego estava, no final de 2007, nos 7,9 por cento, oito décimas acima do valor que o Governo encontrou quando tomou posse. Entre o quarto trimestre de 2004 (o último dado antes de José Sócrates começar a governar) e o terceiro trimestre de 2007 (últimos dados disponíveis), foram criados 77 mil empregos (de 5,133 milhões para 5,2 milhões), cerca de metade da promessa do Governo, o que torna o objectivo virtualmente impossível de atingir. Verificou-se um aumento dos contratos a prazo, que mais que compensou a destruição de empregos com contrato permanente. No mesmo período, o número de desempregados aumentou de 390 mil para 444 mil.

Eu sou grande, enorme, imenso. Enfim, médio, por estes dias. Mas bonito, acatitado, glosado, cantado e lindo como as estrelinhas que há no céu. Sou orgulhoso e raçudo, pergaminhado de pai e mãe, tios e avós. Sou História e sou tradição, sou costumes e folclore, povo e mar com fartura. Sou mestiço, poliglota (e anedota que não se esgota), da minha elite ao chinelo. Eu sou belo. E sou castiço, sou típico e invulgar. Sou de amar. Sou de odiar. E detesto que me mintam. Sou tão mau como me pintam, quando me emprenham e fogem. Quando me prometem rosas e eu só pico o cú em espinhos, em busca da flor prometida. Que porra de vida, esta, a minha única vida... Eu sou Portugal inteiro, desde o norte até ao sul, deste 'pois, enfim' geral que é ter uma classe política eternizada nas minhas dificuldades e carências para assim sobreviver, profissional, técnica e politicamente falando. Ou quero dizer, prometendo, se calhar, quem sabe, pá! Ao 'deixa andar' nacional? Um referendo geral.

Já.

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