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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

19
Dez07

Quando a cauda abana o cão

Rui Vasco Neto
Acabei de papar o Jornal Nacional da TVI. Quase todo. Fui espreitando o Braga, a tempo de ver aquele belíssimo segundo golo que quase deu para perceber porque raio enlouquece meio mundo com o futebol. Mas regressei à TVI em boa hora, mesmo a tempo de assistir à peça de fecho do jornal. Era sobre o Pai Natal, o que nem por isso me matou de espanto. Mas o pai natal escolhido apanhou-me de surpresa, tenho de admitir. E fez-me sentir aquela coisa que nos aperta a alma quando se é jornalista, aquele falso arrepio que nos alerta para a presença de coisa rara, one of a kind. Passo a explicar.

Com todo o mérito para a produção da informação, a TVI descobriu um pai natal nas raias da perfeição audiovisual. Um senhor, chamado Fernando Nobre, 73 anos, avô de dois, bem vestido a rigor e melhor ornado com umas longas barbas, tão brancas como genuínas. Umas belíssimas barbas, diga-se em abono da verdade. E depois a voz, certa para a fantasia do pai natal de qualquer pessoa, perfeita nas deixas e no tom, exacta na postura e absolutamente correcta na atitude. Num tempo que espirra nojo nas parangonas dos jornais só com aquilo que se vai descobrindo, fora o encoberto nas sombras de cada um, ver este velho sentar crianças que lhe são estranhas no colo, beijá-las e acariciá-las, foi ter o privilégio de recordar como deveria ser sempre o carinho entre gente, nova ou velha, seja Natal ou seja Agosto.

Mas mesmo com todos estes atributos, toda esta dimensão da figura humana escolhida para colorir o boneco natalício que era objectivo da repórter quando saiu da redacção, encomenda debaixo do braço, poderia muito bem ter passado despercebida por entre o vermelho da farda de Fernando e o brilho de fundo das luzinhas festivas da quadra solene. O que fez de facto a diferença neste caso foi o tipo de abordagem que a autora deu à peça. As perguntas. Os comentários. Os pormenores exaustivos, como por exemplo os 34 microsegundos por chaminé que um grupo de cientistas suecos decidiu ser o tempo estimado para a permanência do Pai Natal em cada casa do mundo, fazendo as contas a uma viagem em sentido contrário à rotação da Terra e sem partir da Lapónia mas sim do Querdistão. Incrível, não é? Jornalismo de investigação. Rigor matemático versus sapatinho na chaminé, um cocktail explosivo para o noticiário das oito. Tudo pontuado com as palavrinhas do Pai Natal e embrulhado entre os planos de corte e a palha da locução. Tudo trabalho, no fundo, apenas trabalho, ou a mais elementar necessidade de editar uma peça de fecho para o jornal nacional sobre o tema mais editado da actualidade: o Pai Natal.

O resultado final acabou por surpreender, no geral. Afinal não é fácil fazer este tipo de peças da época, baralhar e voltar a dar sempre com originalidade cem por cento feliz. A jornalista em causa, cujo nome não cheguei a ver, com pena, nem por isso ficou assim tão mal no retrato, poderia ter sido pior, muito pior. Não envergonhando, acabou por cumprir embora sem brilho. Mas o que me causou o tal falso arrepio da profissão, o que me deu de facto o alerta de invulgaridade foi mais uma vez o personagem em si, o tal Fernando das barbas brancas, 73 anos, avô de dois, que se prestou à tortura da tolice informativa com o mesmo sorriso verdadeiro que deu a cada menino e menina que lhe puxou as barbas, com força para ver se eram mesmo verdadeiras. »Chego a ficar com a cara toda vermelha no outro dia», contou. Pois o trabalho de reportagem que eu vi era mais ou menos a mesma coisa, salvaguardando as proporções, claro. Mas para cada puxãozinho verbal, para cada pergunta de chacha, para cada graça sem graça, para cada silêncio até, aquele ancião teve uma saída airosa e lúcida, uma expressão de inteligência e bom gosto, tão acima da vulgaridade que dir-se-ia puxado pelas renas da bondade e da pureza de alma, deixando nos céus da noite informativa da TVI um eco de ho ho ho's de simpatia.

Confesso que me bateram as saudades do 'picanço' das redacções, das corridas do fecho, do imenso milagre da televisão, que todos os dias ensina a vida a quem é desta arte. Neste caso em particular aprendi uma lição rara vestida de pai natal. Um entrevistado que mostrou ao seu entrevistador e ao país inteiro que, com jeitinho e humildade, até pode ser a cauda a abanar o cão e não o contrário.

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