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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

16
Mar09

Mais um, menos um.

Rui Vasco Neto

Foi em Novembro de 2005 que este caso aconteceu. Hoje, quatro anos passados sobre a estranha morte de um jovem durante um curto internamento para habituação à metadona, sabe-se praticamente o mesmo que na altura sobre as causas do sucedido, ou seja, nada. Foi mais um caso, mais um pingo desta imensa nódoa social, nunca limpo mas arquivado, juntamente com os outros, muitos outros. Escrevi este artigo, publicado no 'Jornal dos Açores', quatro meses depois da morte de Rui Marrucho e volto a publicá-lo agora, quando já são quatro os anos passados. Sem respostas, porque respostas não há, convenhamos. O que vai havendo é cada vez mais perguntas sobre este maldito assunto, mais dúvidas sobre todas as certezas que se dizem conseguidas até aqui. E mais mortes, sempre mais mortes, todas estúpidas, como esta que este texto recorda. Porque sim.


 

É um documento deveras impressionante, a carta aberta publicada no jornal Expresso da Nove da passada sexta feira, de uma mãe que procura saber quais foram as causas da morte do seu filho, ocorrida durante um internamento de quatro dias do malogrado jovem na Clínica S.João de Deus para fazer habituação á metadona. De resto, a história é toda ela deveras impressionante. Estranha. A começar pelo fim, a morte de um pouco mais que garoto por causas que não se descortinam. A ausência de explicações credíveis e consistentes por parte da instituição. A ausência de explicações credíveis e consistentes por parte seja de quem fôr, já que nem a uma cópia do relatório da autópsia esta mãe teve acesso. A vida que se foi e a desresponsabilização que ficou. Os quase quatro meses que já passaram sobre o facto. E os três outros casos de mortes registadas em circunstâncias semelhantes neste período, no mesmo local. É obra.

 

Eu não conheço a D. Fernanda Marrucho, signatária da carta, tal como não conhecia o Rui Marrucho, o seu filho morto. O que eu conheço é a realidade da toxicodependência em Portugal e as suas consequências na vida de todos nós. E conheço o preconceito que permite que estas coisas aconteçam, sejam abafadas e de preferência esquecidas em nome dos interesses inconfessados de quem de facto ganha dinheiro com o tráfico e com o consumo de drogas.

 

Falar de toxicodependênca tornou-se um lugar comum de mau gosto, a todos os níveis. E essa é razão pela qual a inteligência está de todo arredada da discussão do fenómeno cada vez mais preocupante do consumo de drogas duras em Portugal. Nos dias que correm, a droga faz vender jornais, eleger políticos, aprovar orçamentos milionários, construir carreiras, vender medicamentos, lavar receitas, abrir clínicas de tratamentos miraculosos e mais, muito, muito mais. Agora digam-me, por favor: quem é que vai querer acabar com uma coisa assim tão lucrativa? Quem vai querer dar passos decisivos para mexer no ganha pão de tanta gente? Isto sim, é a toxicodependência. A dependência dos tóxicos. Uma pirâmide de milhões cuja base assenta nas costas sempre largas do consumidor, para quem está guardado o julgamento moral dos seus actos, que de tão feios e miseráveis que são, possuem o confortável condão de concentrar todas as atenções e canalizar todas as revoltas, deixando campo livre para tudo e para todos que garantem a sobrevivência do vício, alimentando-o na sombra..

 

Eu não conheço a Clínica S. João de Deus e não conheço todos os pormenores que fazem a história daquilo que realmente aconteceu. Mas sei que ninguém morre de habituação ou desabituação á metadona. E sei que ninguém morre por falta de droga. E desconfio que vai morrendo mais gente fruto da estupidez, ganância e incompetência dos outros, que por consumo próprio de substâncias ilícitas.

 

A carta aberta de Fernanda Marrucho é o retrato da nossa vergonha. Uma vergonha que ninguém sente, porque estamos a falar de droga e de drogados e ninguém quer nada com esse tipo de gente. E ninguém é ninguém, mesmo. Nem os pais que têm filhos na mesma situação, escondidos algures em clínicas privadas para que os vizinhos e amigos não saibam e não comentem. Nem a Ordem dos Médicos, que não se atreve a assumir que sabe quanto se rouba a pais desesperados e tão doridos que pagam tudo e tudo aceitam, em troca da miragem de uma cura que pode ser que seja desta vez. Nem o Ministério Público, onde se fazem carreiras a encher prisões com traficantes da treta, só para a estatística, deixando de fora quem manda de facto só porque dá mais trabalho e menos números no final. Nem o governo, que tem medo de sujar os punhos de renda do debate democrático se tiver que mexer na merda e ela transbordar para o lado menos conveniente, salpicando quem apoia, paga, financia, investe, desenvolve e é gente de bem, acima de todos os salpicos. Tal como está, a toxicodependência sempre permite que a classe política mantenha o equilíbrio, sentada na tampa da ordem pública que faz o mundo cheirar bem e ser bonito e separa os uns dos outros. Há problemas no esgoto? Os ratos que os resolvam entre si. Os ratos morrem? Mais um, menos um, ninguém quer saber.

 

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