Contas à vida
Quarta-feira, 04 Jun, 2008

Um, dois, três, quatro, cinco, zero. Estou na rua, estou em casa, estou no espaço, estou sem ele, estou na terra e estou aqui, estou ali, estou no mar. Estou de dia, estou de noite, estou à hora do meio-dia, até, que agora nem por isso é o 'meio' que era dantes, já nem isso está na mesma... tudo mudou menos eu, que insisto no absurdo de estar, estando assim. Mas que vou estando, enfim, e sempre que estou (ou desde que esteja, vai dar no mesmo) tenho-te comigo, instalado no pensamento, gravado a sangue (esquece o suor, pensa nas lágrimas). Sempre, a todas as horas, pois que cada segundo é um pretexto, um 'a propósito' que, junto aos outros mil, soma este despropósito em que vivo, de assim estar por tu não estares. Repara que é injusto tu não estares se eu estou, (uma vez ou outra, que seja). E algo perverso, também. Ou não vês? Pois se quando eu estou tu estás, por que diabo não poderás tu estar onde eu também esteja, comigo lá eu onde estiver? É que é tudo o que nos falta, aos dois e a cada um, neste momento e há tempo demais: deixar que o 'estou' passe a 'estamos' para estarmos juntos e um com o outro (coisas distintas, porém compatíveis). E é isto tudo e o que eu mais peço à vida, todos os dias, o meu desejo mais repetido, para dentro e para fora, desde a prece muda até ao murmúrio acanhado, daí para a voz alta, e a seguir mais alta um pouco, ou mesmo dois poucos, três poucos e um berro, dois, três, gritos aflitos da angústia de não te saber. Moral da história? A puta é surda que nem uma porta, fechada para mim por ti há tempo demais. Abre, por favor. Sou eu, lembras-te? Sou eu.

 



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar | ver comentários (11)

Carta aberta a quem me escreve
Quarta-feira, 20 Fev, 2008
Caro colega. Ooops! Comecei mal. Não devo chamar-te colega. “Colegas são as putas”, dizia Reinaldo Ferreira, o nosso Reporter X, numa frase que ficou célebre no jornalismo nacional. Caro amigo também não. Não porque o não sejas hoje, mas porque não sei se o serás amanhã. No jornalismo é assim, há muito disto, infelizmente, muito lobby, muito grupinho, muito Abel de manhã e Caim à tarde. O que acaba por ter a sua lógica, convenhamos. Afinal, não se pode dar à língua entre amigos, se alguns a trazem ocupada a polir as botas de uns ou a humedecer os recantos de outros. É uma questão de sobrevivência, compreende-se. É a lei da vida, suporta-se.

Mas, meu caro, entendamo-nos: os jornalistas não são nem piores nem melhores que as outras pessoas de outras profissões. São seres humanos que sofrem dos mesmos defeitos de fabrico, digamos assim, que carregam os mesmos pequenos quês de toda a gente em geral. Por obrigação profissional, vêem-se obrigados a falar muita vez sobre as vidas dos outros. Regra geral e por condição deontológica, sempre e só quando o interesse público o justifica. Fazer isto com rigor e isenção não é, acreditem, a melhor maneira de aumentar o número de amigos chegados. Fazê-lo sem rigor e de isenção comprometida por uma ou trinta moedas de prata é uma arte complicada, uma espécie de andar no arame julgando que se tem rede. Se a coisa corre bem, fica-se muita vez bonito no retrato. Quando corre mal é que é o diabo, porque a rede raramente lá está. Pelo sim pelo não, a bem de um soninho descansado, sugiro a correcção permanente. Sempre.

Nada disto é novidade para ti, que fazes jornalismo num meio pequeno e sem a lupa de uma opinião pública forte e com vontade de saber as coisas, doa a quem doer. Para ti que começas agora é importante que saibas as linhas disponíveis para a cozedura que vais ter de enfrentar todos os dias, todas as semanas ou todos os meses. Para ti que já cá andas há muito não há crise. Já dominas, já controlas a arte do arame e tens até já na manga uma ou duas redes de reserva para o caso de dar barraca alguma indiscrição que te escape e o tombo surgir. Que seja pequenino, se tiver que ser. Mas de preferência que não aconteça.

As sociedades evoluem em velocidade global, nos dias de hoje. As notícias circulam mais e melhor contadas, com mais rigor, com mais profissionalismo. O jornalista já não é um curioso. É um operário da informação. E assim as notícias, não os jornalistas, vão mudando o mundo. Todo ele, aqui o nosso mundinho também. E todos desejamos que seja para melhor. Num meio pequeno e com poucos recursos, a competitividade é saudável, a concorrência estimulante, mas a solidariedade de classe, a decência inter-pares, é mais fundamental que nunca para a qualidade do produto final, que é a soma de todos os produtos finais que todos os jornalistas, estagiários e colaboradores de toda a ordem criam e constroem, todos os dias e para toda a gente, nesta terra em que vivemos. Para ti, meu caro, tenho dito.


publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar | ver comentários (1)

O Gago da banza
Domingo, 17 Fev, 2008
Esta figura que aqui vêem é o meu amigo Alfredo Gago da Câmara, diamante de gema açoriana, uma espécie de arrebimbómalho da guitarra portuguesa, enfeitado com um coração de ouro e um maufeitiozinho de antologia, teimoso como três mulas. O que é um arrebimbómalho da guitarra portuguesa? É alguém que nos faz trinar por dentro, a cada gemido solto por aquelas cordas que ele prende e faz soar como poucos. É alguém que nos embala na melhor companhia para qualquer viagem ao fado da nossa vida, um músico de eleição e a minha rede preferida sempre que salto para o trapézio. E o que é um coração de ouro e um maufeitiozinho de antologia, teimoso como três mulas? É o meu amigo Alfredo Gago da Câmara.

Um dia, atrevidote e armado em poeta, mandou-me uns versos, uma daquelas quadras piplares antigas, a desafiar-me para a glosa. «
Cabelo branco é saudade? Quem o disser exagera! Às vezes, quando Deus quer, cai neve na Primavera.» E eu, atrevidote e armado em poeta, mandei-lhe estes versos de resposta à encomenda. Hoje lembrei-me dele e deles, por tabela. E dos palcos que pisámos juntos, dos espectáculos, das palmas, das fífias, das conversas, das partes gagas, das histórias que só nós dois é que sabemos e dos cabelos brancos que ele me pôs nestes anos de amizade pura e dura. Maufeitiozinho de antologia, teimoso como três mulas. Cabelo branco é saudade? Quem o disser exagera.


Sinto que estás a mudar
a cada dia que passa.
De dia tens outro ar,
à noite tens outra graça..
Estás bem melhor, digo eu,
na mais fina flor da idade.
E se o cabelo embranqueceu,
cabelo branco é saudade.

Imagina que nevou.
Que, depois de um frio de morte,
o ar, de tão frio, gelou
e o branco ditou-te a sorte:
"Será grisalho o amor
que esse teu coração espera
".
Poderia ser pior?
Quem o disser exagera.

Há quem viva e morra assim:
sem nunca saber o amor.
Os dias não têm fim
e à noite, então, é pior:
nada é o que parece.
E não adianta querer,
que o amor só acontece
às vezes, quando Deus quer.

Por isso dá por feliz
a hora em que encaneceste.
Se o teu branco é de raiz
é um sinal que cresceste,
já não és grande, és maior,
acabou a longa espera.
No Outouno do nosso amor,
cai neve na Primavera.

publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar | ver comentários (18)

Do portão da casa para dentro
Sexta-feira, 15 Fev, 2008
Daniel, querido amigo. Enganaste-me, em privado. Dizes que mandas um 'poema com uma casa dentro' e envias-me um edifício poético com um poeta lá dentro. Resultado? Acendeste-me a saudade de casa. 'E a casa faz falta mesmo quando já não existe. Mesmo quando os seus telhados de vidro são frágeis como a saudade e inúteis como o remorso'. Não resisti, passei por lá só de fugida. Tem as cortinas corridas e as portadas fechadas, mas a porta está sempre no trinco para facilitar a visita. Trouxe-te este enfeite, estava por lá. Tem música própria, a meias com o Paulo Jorge Santos, guitarrista de eleição, e só foi editado há quatro anos. Mas tem uns bons vinte anos de escrito. Nunca mais me enganes.


Hoje, meu amor, esquece o meu nome
não me esperes mais que eu vou para a rua
beber, fugir de mim, gritar à Lua,
brincar de faz de conta até poder.

Hoje, eu digo a todos os meus medos
que em noites de festa eu sou perfeito
e deixo em casa as mágoas e os segredos
que pesam toneladas no meu peito.

Sinto um recado no ar:
"que os ventos da loucura te protejam,
que os sonhos sejam sonhos que se vejam,
que vidas pequeninas temos nós".

Sigo a voz que sopra aos meus ouvidos
os mais lindos versos que há memória
e deixo-me ir, no embalo dos sentidos,
sonhar dias de sol, noites de glória.

Sempre iguais, os dias continuam;
mal acaba a noite lá vou eu
dizer-te que a manhã escondeu a Lua
e a voz dos versos desapareceu,
o sonho que eu sonhava amanheceu,
e a minha fantasia adormeceu.

publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar | ver comentários (9)

Contas à vida
Sábado, 02 Fev, 2008
Aqueles que em mim cospem por solidariedade a terceiros apanho-os em geral duas vezes na vida. Uma, duas. Cruzam-se comigo à ida, quando me atiram o cuspo e o desprezo, quando me gritam insultos e jogam a primeira pedra e as dez seguintes. É sempre uma hora de raiva, percebe-se melhor que se aceita. É o ser humano no seu pior. Depois apanho-os à vinda, quando já lhes dói o engano em que cairam com a inteligência de perna aberta e só a pensar no orgasmo da sua conveniência. Quando já se cansaram de ser solidários com o disparate. Vêm sempre contrictos, chorosos e arrependidos, de arrogância cabisbaixa e insulto aninhado nos entrefolhos do isso. E pedem desculpa, pagam um copo, lembram tempos antigos, eh pá, sempre fomos amigos, gosto de ti à brava, és mesmo muita bom, como é que isto aconteceu. Dois e dois são quatro, quatro e sete são onze, um e um são dois mas dois sem três é melhor. Entra, seca os olhos, assoa o nariz e deixa-te estar. Mas vai à merda, pelo sim pelo não. E agora conta-me lá: estás bem? E lá em casa?


publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar | ver comentários (6)

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Contas à vida

Carta aberta a quem me es...

O Gago da banza

Do portão da casa para de...

Contas à vida

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas