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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

03
Set08

Correio Lunar

Rui Vasco Neto
Chegámos todos bem e na graça de Deus. A viagem foi um nadinha cansativa, mas suportável ainda assim. A Clarinha vomitou, é sempre a mesma coisa quando andamos de foguetão. Acho que é dos balanços. O gato fugiu da gaiola e nem queiram saber a confusão que arranjou com a falta de gravidade. Só conseguimos apanhá-lo porque ficou esborrachado contra o vidro mesmo em frente ao nariz do piloto, que era uma senhora muito simpática e que faz esta carreira desde o princípio, já viu de tudo e está habituada. Mesmo assim andámos todos a tirar os cócós do bichinho que se agarraram ao tecto e foi por um triz que não tivemos um acidente com um asteróide quando tínhamos acabado de entrar na antiga Láctea 255, que é agora a Alameda Láctea Presidente Sócrates, mesmo em frente à rotunda de uma das Ursas (nunca sei qual delas é, confundo muito estes caminhos novos). De qualquer forma isto aqui é tudo muito bonito, tal e qual os Lencastre e Silva nos tinham dito, quando voltaram de comprar o terreno deles. Só tenho pena de não nos terem deixado trazer as digitalfilm, mas o terrorismo espacial acabou com esses pequenos luxos. As viagens agora são muito lentas, por causa dos limites de velocidade. Chegamos a demorar três, quatro horas ás vezes, para chegar da Ota à Lua. Já me aconteceu demorar seis horas, mas foi em transporte militar e fizemos escala na Grande Líder Schwarznegger durante quase hora e meia para descarregar dez caixas de mísseis de bolso e quatro barris de vírus e bactérias letais. Desta vez até foi aceitável, menos de duas horas e meia e alunávamos no Hillary Clinton Space Center, a poucos minutos-luz da baixa. Passámos no McDonalds e viemos logo para o condomínio, que os miúdos não se calavam com a casa nova. O avô ainda queria dar uma voltinha para conhecer a cratera Maria Cavaco, mas como já era tarde e não havia táxis resolveu deixar para depois. Mando-vos estas fotografias que tirei da janela do meu quarto. É uma zona lindíssima, como podem ver e está tudo ainda muito em bruto, faz lembrar o nosso Algarve. Os vizinhos mais próximos são cubanos e compraram um lote lá mais para o pé do Mar da Palha, que ainda fica longe daqui mesmo em linha recta. São uns senhores muito simpáticos, metade de uma família que aguarda a chegada da outra metade que ficou para trás à espera de autorização de saída por parte do governo de Cuba. Estou certo que já falta pouco. Ainda da última vez que os vi eu lhes disse para terem calma, que Fidel já não pode durar muito agora, que diabo. Assim que puder vou tentar telefonar, embora as chamadas sejam muito caras. A tia Teresa perguntou se já havia Internet por aqui, mas parece que nem TV Cabo existe, só se apanha a RTP Memória, a CNN e a LaFériaTV. Ainda não é rentável para as grandes companhias, disseram-lhe, embora os lotes se estejam a vender muito bem, principalmente aqui na nossa zona. Disseram-nos até que, depois do Bairro Comendador Tino de Rans, esta é a zona lunar que mais tem valorizado desde a morte de George Bush. Não vos maço mais por hoje. Gosto muito de vocês todos e é difícil não ter saudades vossas. Sempre que vejo um pôr-de-terra no horizonte eu venho cá para fora (embrulhado numa mantinha que roubei do foguetão) e penso em tudo o que deixei para trás. Ás vezes é complicado segurar as lágrimas, que pairam à minha roda sem parar. Mas quando issso acontece concentro a atenção no trabalho e acabo por me esquecer de tudo o resto. É uma das vantagens da agricultura, como sabem, e no próximo mês já temos as vindimas, graças a Deus. Mal tenha um bocadinho livre escrevo outra vez. Cumprimentos ao nosso pessoal. E adeus a todos que eu estou na lua. Não me chateiem que eu agora estou na lua.

 

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